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terra de espíritos

histórias, crônicas e contos

Self Service

          

                                    Foto: publicdomain.net 

Por: Antonio Mata 

Dia úmido e de muito movimento na cidade. Barulho, carros, pessoas em profusão. Sob a ameaça de chuva apertam o passo para sair logo dali. Outros virão para manter o burburinho. Quando começa assim e termina assim, melhor. O problema todo é o que acontece pelo meio. A filigrana que aparece no miolo da cidade.

Horário de almoço e muita gente frequenta os restaurantes a quilo. Estes se tornaram comuns nos centros urbanos. A fila já estava formada, com as pessoas balbuciando amenidades. Um cochicho aqui, outro ali, enquanto aguardam o movimento da fila.

Um homem alto e mais expansivo puxa conversa com outras duas pessoas na fila. Falando sem parar chega ao balcão de serviço. Acomoda sua bandeja, prosseguindo com sua fala. Abre os recipientes com os alimentos, um a um, na medida em que a fila se desloca. Fica com a tampa na mão falando e sacudindo a tampa. Ora para cima, ora para baixo. Enquanto fala, leva a tampa no intuito de cobrir o alimento, para em seguida recolhê-la.

Lembra de algo particularmente importante e que não pode deixar de ser dito:

— Não bastasse tanta miséria, tem ainda aquele boleto com o valor adicional do condomínio. Mais dinheiro, só querem mais dinheiro.

O outro, atrás na fila, meio sem jeito, pede para que ele coloque a tampa no purê de batatas e prossiga com a fila. Ele cobre o recipiente e abre o arroz com cenoura e brócolis. Lembra de outra coisa, quase um segredo, que constata não ser mais. Então, conta detalhes pessoais, coisas íntimas, só que da vida dos outros. Tudo com a tampa do arroz subindo e descendo, enquanto explica a história toda. Pior quando resolve explicar que era muito longe, muito distante, com a tampa subindo acima da cabeça, como que a provar que era longe mesmo.

— Ainda bem que desisti na hora! Já pensou se eu entro nessa roubada? Um cara duro como eu? Seria o fim da picada.

Novo pedido para que avance, abaixe aquela tampa e cubra o arroz.

— Ah sim, pois não, pois não. Pois é, assumi de vez a minha condição. Eu agora só ando duro.

Abre a tampa do bife ao molho e começa tudo de novo, falando, cuspindo, gesticulando com a nova tampa na mão. As pessoas na fila se entreolhavam, já incomodadas com aquela figuraça. Até que, finalmente, deixa o balcão de autosserviço, se dirigindo à pesagem e ao pagamento.

A funcionária ajusta o prato e lhe oferece o preço da refeição:

— São vinte e seis reais, senhor.

Ele olha para a funcionária do restaurante com cara de espanto.

— O quê? Vinte e seis reais? Você tá brincando! Não era quinze?

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