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terra de espíritos

histórias, crônicas e contos

Sem pompa nem circunstância

     

                  Foto: publicdomainpictures 

Por: Antonio Mata 

 

Não fazia diferença que fosse o vinho, o trigo, o peixe ou frutas secas. Se não houvesse a preocupação de se antecipar, negociando com os produtores, corria o risco de ficar sem estoque. Cestos, ânforas e sacos se esvaziavam rapidamente. Por vez, o armazenamento precário comprometia os estoques limitados.
 
A movimentação toda, longe de ser um problema para Jacob, muito o interessava. Vinha percebendo essas falhas e interrupções no abastecimento. Os pequenos vilarejos estavam assumindo ares de cidade. O intermediário surgiu pela necessidade de alguém suprir estes vazios, aproximando produtores e compradores.  
 
Os pequenos comerciantes, dependiam da manutenção de pequenos estoques. No espaço de um ano já havia estendido sua rede nascente, atendendo as localidades da região, a partir de tropas de muares e camelos. Havia se tornado um comerciante em ascensão, superando dificuldades, ladrões, mau tempo e cobradores de impostos honestos e desonestos. 
 
Foi assim que chegou até Barnabé, que pedia trigo, azeite e vinho. Sua propriedade, onde também existia uma estalagem, estava em processo de ampliação. Na realidade, consistia em acrescentar mais cômodos à construção já existente. Para isto, Barnabé precisava de tábuas, vigas, além de algum mobiliário. Assim, Timóteo, proprietário de uma pequena carpintaria entrou na história. 
 
— Preciso do material o mais breve possível. Chegou a hora de se ganhar dinheiro, mas tudo tem que funcionar adequadamente, senão o dinheiro vai embora. 
 
— Vou cuidar disso o mais rápido possível. 
 
— Também preciso de coisas menores, mas que também não podem esperar, como um par de rodas, jugos e comedouros. O estábulo precisa de cuidados, só não poderei cuidar disso agora. 
 
Timóteo pretendia atender com presteza seu melhor cliente. Deixou temporariamente de lado outros serviços e mandou seus serviçais se concentrarem na encomenda de Barnabé. 
 
Em pouco tempo Timóteo atendia a encomenda em tom de urgência. As peças mais simples, como os comedouros ficaram por último. 
 
— Separe as aparas e madeira inferior. Utilize nos comedouros. Mande tudo como um agrado. Faça o mesmo com o jugo. 
 
No dia seguinte todas as peças encomendadas foram entregues na estalagem de Barnabé, com os comedouros sendo levados para o estábulo. Um seria utilizado para receber água e o outro para grãos e feno. 
 
Os dias se transformaram em anos, sem que nada mais significativo acontecesse, a não ser por parte de Barnabé que somava entre os homens prósperos do lugar. Ainda assim continuou sendo um homem simples, sendo visto com frequência atendendo seus hóspedes na estalagem. 
 
Certa feita o movimento de forasteiros havia aumentado substancialmente na cidade. Por ordem do Rei todos teriam de atender a um censo populacional. Timóteo não se motivou a nova ampliação por entender que isto seria por pouco tempo. 
 
Noite de casa cheia. Muita gente havia buscado a cidade. Após ocupar seu último quarto, dava ordens a seus servos. 
 
— Estamos lotados. Não há acomodação para mais ninguém. Quem quer que chegue procurando por quartos, podem mandar embora. 
 
A noite na estalagem prosseguiu sob a luz de candeeiros e velas. Contudo, para quem se predispôs a prestar atenção, teria visto uma luz pouco conhecida que brilhava no céu, de forma incomum, parecendo um intenso farol. Como luz muito clara e projetada adiante com o uso do metal muito bem polido. 
 
A tal luz sob o céu foi motivo de conversas na estalagem por conta de um e outro hóspede, sem que alguém oferecesse uma explicação razoável. 
 
— A luz é forte e diferente, como nunca vi. Não sei de onde vem, nem pude ver para onde vai. Se é que vai para algum lugar. Parecia só apontar. Dizia um. 
 
— Talvez seja algo como os arco-íris que surgem no céu, após uma chuva, todo colorido. Dizia outro. 
 
— Às vezes a Lua aparece com uma coroa luminosa em volta dela mesma. Também não sei por quê. Só sei que existe. É assim mesmo. Nem todo mundo presta atenção ao que está acontecendo. 
 
Sem respostas satisfatórias, logo mudaram de assunto. Afinal, nem todos sentem igual e nem todos vêm o mesmo. A maioria não costuma ver quase nada. 
 
Aos poucos, todos os hóspedes se retiraram e adormeceram. Lá fora, noite alta, nada de importante a tirar o sono do lugar. 
 
Submetidos ao anonimato. A despeito da luz que envolvia o local, aquela mesma que nem todos podem ver, pequeno grupo de pessoas se encontrava no estábulo. Sem que a maioria dos homens percebessem, porém, tomados de todo o cuidado e segurança, o pequeno e discreto encontro prosseguiu. 
 
Atendido o seu propósito, o grupo se desfez, enquanto uma mulher e um recém-nascido dormiam. 
 
As profecias são trazidas por pessoas específicas e ressoam nos ouvidos humanos através dos séculos. Até que, sem que se perceba, o cumprimento se apresenta. Não oferece maiores explicações, nem espera por aceitação. Apenas, no tempo devido, se cumpre. Só depois os homens se dão conta. 
 
Na manhã seguinte Timóteo conversava sobre os negócios com um de seus servos. 
 
— Tanto a venda de mantimentos como a ocupação da estalagem foram ótimas. 
 
— Sim senhor, o movimento foi grande. Conforme foi ordenado, dispensamos os retardatários, por falta de espaço. 
 
— Está certo. Da próxima vez, que tratem de procurar a estalagem mais cedo. 
 
— Ah, sim. Houve um casal que mandei se ajeitarem no estábulo. A mulher estava esperando uma criança e precisava de um lugar para descansar. 
 
— É mesmo? Como é que alguém se põe a viajar com uma mulher nessas condições? Deveriam ter visto isso com antecedência. Pois bem, veja se já dispomos de algum quarto desocupado e os passe para lá. Cobrando pelo dia adicional de hospedagem, é claro. Só espero que não sejam mendigos. 
 
— Não será necessário, pois eles já foram embora. 
 
— Já se foram? 
 
— Sim, partiram logo pela manhã. A mulher levava uma criança consigo. Parece que nasceu no estábulo. Encontrei o coxo coberto com palha. Talvez o tenham utilizado como uma espécie de berço para acomodar o recém-nascido. 
 
— Mas que idiotice! Como é que se coloca o próprio filho dentro de um coxo? 
 
— Não se esqueça de que estávamos lotados, senhor. 
 
Timóteo pensou mais um pouco. 
 
— É verdade, foi melhor assim. De outro modo, teríamos uma criança para chorar no meio da noite e incomodar os demais. 
 
— Por simples que fosse senhor, puderam atender a criança daquela forma. 
 
— Naquele ambiente sujo. Fazer o quê. Ainda bem que foram embora. 
 
Entraram no estábulo e se puseram a observar o pequeno arranjo, feito às pressas para acomodar o recém-nascido. O comedouro transformado em
berço, coberto com palha limpa. 
 
— Pois bem, esqueçamos isso e voltemos ao trabalho. Já esse coxo velho, aproveite como lenha e ponha no fogo. 
 
Um coxo velho, depauperado pelo tempo, tornado lenha para o fogo. Era tudo o que havia ali no mundo visível. 
 
Do outro lado da vida, a peça rude, submetida à mais elevada das vibrações que já esteve sobre a Terra, reluzia tal e qual ouro, em brilho intenso e desconhecido dos homens. 
 
Quase no anonimato e longe dos alardes do mundo, a profecia havia se cumprido. Sem pompa, nem circunstância, o Cristo Planetário estava entre os homens. Marco zero da anexação ao Reino. 

 

 

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