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Simbá e Canela

                                                                             

                                                                                                                                                   Foto: Noel Lopez

Por: Antonio Mata

 

Terça-feira era um dia em particular. Simbá, um cão Dachshund que Felipe, seu tutor, tratava com todo o carinho seria levado para o acompanhamento terapêutico no hospital local.

Posteriormente, na quinta-feira, seria a vez de Canela, uma cadelinha da mesma raça. Felipe havia registrado seus cães para prestar esse tipo tão peculiar e exclusivo de serviço canino.

 Quando um animal se torna um auxiliar no tratamento de enfermos e pessoas deficientes, o cão de terapia.

Para tal Felipe se predispôs a realizar a formação adequada que lhe permitisse exercer atividade. Felipe era voluntário junto ao hospital da comunidade, sensibilizado pela atenção que sua mãe havia recebido.

Lutando contra o câncer, pôde contar com o apoio de profissionais abnegados, aos quais, era muito grata. Dona Eulália foi a primeira pessoa da família a participar da terapia assistida por animais TAA, na condição de paciente.

Felipe se motivou a treinar e a oferecer seu casal de Dachshund, por pura gratidão, levando seus companheiros em dias alternados. Para seu primeiro paciente, Simbá fora indicado para o acompanhamento de uma criança com síndrome de Down.

O menino realizava acompanhamento periódico no hospital e seu médico, satisfeito com a presença de Simbá, acreditava na terapia complementar.

Com as visitas regulares ao menino, havia a chance de despertar sua sensibilidade e melhorar seu bom humor. Doutor Humberto, o médico que fazia o acompanhamento do menino, fez questão de conduzir a dupla até seu paciente.

Sem maiores impedimentos, Simbá foi levado à presença de André, um menino de nove anos. Foi Felipe quem buscou o primeiro contato:

— E então André, me disseram que você estava aqui, aí resolvi trazer um amiguinho nosso que está comigo já tem uns três anos. — Em uma coisa você pode acreditar, gosto muito da companhia dele. Você não gostaria de ficar com ele um pouquinho?

— O nome dele é Simbá, você pode passear com ele se quiser. Ele não morde, além disso, gosta de crianças. O que você acha?

André fez menção de se afastar, mas aos poucos foi se aproximando do pequeno Simbá, que não se incomodava com a presença do menino.

André foi sendo cativado por Simbá lentamente, sem pressa. Ficou prestando atenção nos olhos e no jeito daquele salsicha.

Segurou-lhe o rosto com as mãos, e lhe ofereceu um meio sorriso. Nada mal para um primeiro dia de contato.

O pequeno Simbá foi fazendo o quebra-gelo daquela manhã permitindo que o menino se aproximasse e o acariciasse. Houve uma tentativa meio desajeitada para colocá-lo no colo. O que não estava dando muito certo, pelo tamanho do menino, meio franzino.

Com a ajuda de Felipe o gesto foi transformado em um abraço generoso da parte de André, que dessa vez abriu seu melhor sorriso.

Taís, a mãe de André, ficou muito impressionada com a aceitação de seu filho e com tranquilidade de Simbá. Era inevitável querer saber quando voltaria mais vezes e quando Simbá estaria disponível para acompanhar seu menino.

Taís havia se tornado o anjo da guarda de André. Dedicada e atenta às necessidades especiais do filho, quando tomou conhecimento do trabalho de Felipe com os cães, através do médico do menino, não pensou duas vezes e prontamente aceitou a experiência.

A pequena iniciativa, agora se mostrava de muito sucesso. Isto confortava profundamente a mãe do garoto. Haroldo, o pai de André, não conseguiu compreender.

Era uma jornada de fé, esperança e doação que o Divino lhes oportunizava, e já se completara três anos desde que abandonara a família.

A terapia estava cumprindo seu papel, e Simbá era o pequeno terapeuta daquela manhã, para um garotinho acostumado a viver fechado em seu próprio mundo.

Idealizado para perseguir e capturar animais de toca, como coelhos e lebres, o Dachshund é um cão muito antigo. Tem acompanhado o homem há pelo menos cinco mil anos.

O tempo passou, de caçador a cão de companhia, o pequeno salsicha recebe agora nos dias de hoje; a nobre missão de socorrer os enfermos.

De volta para casa Felipe estava satisfeito com o desempenho de Simbá e o apoio terapêutico prestado ao menino André. Se identificara com aquela atividade, que exigia conhecimento, disponibilidade, mas principalmente o desejo de servir.

Foi por inspiração dos avós maternos que se interessara por cães, ainda criança. Aprendera a oferecer os cuidados básicos. Pôde entender, principalmente, que não eram como brinquedos infantis; mas sim seres vivos.

Isto em uma relação em que tudo o que se faz, depois volta. É a Lei de Causa e Efeito. Um entendimento fundamental para se compreender o sucesso e o fracasso nas ações humanas.

Se um é amigo do outro, o outro se tornará próximo também. Isto fez com que Felipe crescesse compreendendo questões fundamentais.

Agora, na vida adulta, tais entendimentos o ajudavam a obter resultados mais sadios de seus esforços, para si e para seus animais.

Para quinta-feira, seria a vez de Canela. Lhe haviam indicado uma senhora idosa de nome Feliciana, uma paciente hipertensa que se encontrava internada no hospital, e por conta de sua idade avançada, inspirava cuidados.

Maria Ruth e Sinval, avós de Felipe, já se encontravam do outro lado da vida. Nem por isso se afastavam do rapaz. Felipe recebia o apoio de espíritos dedicados à lida com animais.

Isto tinha a ver com os interesses de Felipe, trabalhar com cães voltados para a assistência espiritual aos doentes. Esta constitui a face pouco conhecida da TAA.

Tudo o que ocorre sobre a Terra que seja proveitoso e bom, recebe algum tipo de apoio da parte de espíritos mais experimentados do que nós, que nos auxiliam em nosso próprio proveito.

Não se trata de se criar fantoches na matéria, mas de se amparar e incentivar os espíritos em experiência no plano material a buscarem aprender por conta própria. Deus cria seus filhos para a autonomia.

Espíritos atrasados e enfermiços, estes sim, buscam criar mentes escravas. Conhece-se a árvore pelo fruto; uma árvore boa só pode dar bons frutos. 

Felipe estava confiante na participação de Canela. Jovem e esperta, muito dócil e sempre disposta a um colo amigo, ou a se enrolar junto das pessoas.

Muito sociável e atenta, seria uma ótima companhia para dona Feliciana, que recebia poucas visitas, normalmente de um ou outro antigo vizinho, o que reforçava seu comportamento tristonho e depressivo.

O que por sua vez, dificultava a evolução do tratamento ao qual estava sendo submetida. A equipe médica também tinha boas expectativas quanto à presença de Canela.

Dona Feliciana, já muito idosa, foi socorrida pelos vizinhos que estranharam não observarem mais nenhum movimento no apartamento onde residia.

Começaram a bater na porta até ouvirem uma voz fraca que pedia ajuda. Com o apoio do porteiro do edifício arrombaram a porta de vez. Feliciana foi então encontrada pelos demais já sem forças para se levantar.

Sobre uma cama suja, com fome, deprimida e só, esperava pela hora de sua morte. Conduzida ao hospital por estes vizinhos, passou a receber os cuidados médicos necessários.

Já não corria mais risco de morte, porém; permaneceu internada em recuperação. Seus dois filhos foram então localizados. Atualmente, ambos respondem judicial e criminalmente por abandono de incapaz.

No dia e horário combinados, Felipe chegou ao hospital na companhia de sua cadelinha devidamente asseada para seu primeiro encontro com Feliciana.

Verificado o motivo de sua presença com a cadela, foi então levada ao ambulatório onde se encontrava dona Feliciana. A paciente já havia sido cientificada antecipadamente quanto ao trabalho de Felipe e a TAA, tendo consentido a presença da dupla de visitantes.

Foi Felipe quem se dirigiu a Feliciana:

— Bom dia, dona Feliciana. Uma ótima manhã para podermos visitá-la, muito obrigado por permitir o nosso encontro. Acredito que já tenham lhe oferecido alguns esclarecimentos. A respeito da nossa visita e sobre a Terapia Assistida Por Animais.

Feliciana assentiu com um sorriso. Felipe prosseguiu:

— Mas, olha, deixa lhe dizer mais uma coisa. Tudo o que disseram para a senhora sobre a terapia com animais é verdade. Além disso, na medida em que o tempo passava podíamos compreender um pouco mais sobre a presença desses animais em nossas vidas. E continuou:

— Posso lhe afirmar que esses cãezinhos são dotados de uma energia toda especial que os transforma em verdadeiros doadores.

— Canela, oficialmente está aqui para uma seção de terapia, mas, no fundo, eu descobri que ela está aqui por um ato de doação. Ela não está aqui para trabalhar, ela veio só por sua causa e trouxe suas melhores energias e capacidades consigo.

Feliciana compreendeu rapidamente as palavras de Felipe, ainda que não pensasse muito a respeito. O que importava mesmo naquele momento, era o sentido da novidade, aquela visita tão cortês quanto amorosa.

O fato de saber que não havia sido esquecida em um leito de hospital. Foi uma cachorrinha que havia propiciado aquele situação, ainda pouco comum.

Estava contente e sorria; recebeu Canela para seu primeiro contato e pôde logo notar a mansuetude do animal e o seu olhar brilhante, oferta gratuita da cachorrinha naquela manhã.

Pôs-se a conversar com Canela enquanto a aproximava de seu corpo, ainda debilitado pela enfermidade.

A equipe espiritual amparava a atividade diária daquele hospital. Acompanhava ainda, as visitas de Felipe e os resultados que aos poucos iam surgindo.

Elias, responsável pela equipe espiritual, foi quem se dirigiu aos demais integrantes do grupo:

— Amigos, foi providencial toda a atenção oferecida ao menino Felipe, desde os tempos de seu convívio com seus avós. Hoje Felipe recolhe os frutos de sua dedicação e cuidado. Mesmo que não seja ainda capaz de reconhecer a nossa presença.

Teve sensibilidade o suficiente para intuir que os cães, assim como outros animais são portadores de energias benéficas aos seres humanos, aos espíritos na matéria; mas para poderem usufruir desta assepsia psíquica e do espírito, precisam estar próximos dos animais.

Depois, prosseguiu:

— Deus não os colocou na Terra como enfeites para os olhos; estão aqui para o amparo, em complemento a tantas outras ações endereçadas aos homens neste mundo.

— E isto não somente para os enfermos que estão no hospital, mas eles são importantes para todos aqueles que estão transitando na matéria. Deixá-los abandonados nas ruas, e ter de seguir sozinhos. Em um mundo espiritualmente tão contaminado. É um irremediável equívoco.

E assim, o século XXI é o tempo da espiritualização dos homens. É importante que eles não demorem demais a compreender o ideal da fraternidade, do amor ao próximo, em uma civilização que já se despede.

Isto para que outra, mais completa e mais moralizada possa então assumir a Terra. Com a conclusão do Apocalipse de João, abre-se o cenário para as Bem-aventuranças.

A grande oferta de Jesus para aqueles que são brandos e pacíficos. Perderam-se grandes oportunidades, e o tempo agora; é cada vez menor.

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