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Tribulações

                  

                    Foto: publicdomainpictures 

 

A neve se acumulava de tal forma que as pessoas não conseguiam abrir suas portas. Cavava-se e depois precisava socar a neve para fazer degraus, assim era possível sair de dentro das casas.  
 
Isto só por algum tempo, pois lá fora não havia nada, a não ser frio, solidão e mais neve, eventualmente o cenário recebia grupos de moradores que compunham equipes de socorro, verificando a situação dentro das casas.  
 
Interrompia-se o contato, primeiro entre pessoas na cidade, depois entre as cidades. A falta de energia elétrica impedia o uso de aquecedores. A falta de combustíveis trazia mais frio e com ele mais mortes.
 
Era preciso prover alimentos e sustentar algum tipo de contato para que as populações não esmorecessem. Uma preocupação era saber as horas, já que os celulares foram se apagando. Uma forma de se saber se era dia ou noite.  
 
O esforço para se manter uma porta livre, para se sair das casas, era de todos os dias. Temia-se o isolamento definitivo, no frio e na escuridão. Era ainda uma forma de se indicar que ainda estavam vivos. Era assim, nevasca após nevasca. 
 
Nem por isso, os vulcões ao redor do mundo davam sossego. Fosse no pacífico, fosse na Europa, ou América. Prosseguiam fumegantes, como quem anuncia que o Tempo das Tribulações ainda não havia se completado. Tremores de terra violentos e mais extensos que o habitual, cobravam a atenção e o medo das populações próximas. 
 
Despertavam com eles, seus irmãos de tormentos por sobre as águas e por sobre os homens. Hemisférios norte e sul do globo, pobres e ricos padeciam sobre as águas invadindo as cidades litorâneas da Terra.  
 
As torrentes de escombros formavam paredões intransponíveis. Frio, escuridão, fome, sede e devastação. As redes de auxílio iniciam seu colapso. Sem medicamentos, água potável, comida e equipamentos, tudo o que trazem é o que restou. O esquecido e desmerecido resto de civilização. O calor humano. 
 
As chuvas intensas provocavam alagamentos que pareciam permanentes, e muitos serão. As águas não tinham tempo de escoar. As inundações desfaziam as redes de abastecimento, cortando estradas e isolando cidades e comunidades. Em muitas só se chegava de barco ou pelo ar. Populações de ratos buscavam os mesmos espaços secos que os humanos. Chuvas torrenciais e secas intensas destroem as plantações.
 
O calor, intenso e inominável. A sede intensa e inominável. Bebia-se o que estivesse à mão. Qualquer tipo de água. Faltavam purificadores. Não se pensou a respeito. Muitas cabeças úteis ao socorro de sua própria gente, estavam ocupadas com a guerra, com o desenvolvimento e instalação de aparatos bélicos. Ocupados demais para poder ajudar, criando reserva de alimentos e água só para combatentes. 
 
Os animais silvestres e domésticos fogem. Dos incêndios, das nevascas, das secas, dos maremotos, dos terremotos, das inundações, dos vendavais. Os animais fogem para não perecer, para não serem caçados, para não submergir com o velho mundo, a velha Terra. Com aquilo que não fizeram, apenas estavam lá. 
 
Suportar e prosseguir com coragem e fé, trabalhar com os demais, oferecer auxílio. Não pensar em derrotismo ou isolamento. Qual é a medida? A abreviação das dores. Quando será isso? Quando terminar, quando Deus quiser. 

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