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histórias, crônicas e contos

Tributo à persistência

                                                                                

                                                                                                                                                   Foto: Matthias Koch

Por: Antonio Mata

Em certos momentos da vida o desafio se apresenta. É inusitado, diferente, às vezes fácil, às vezes mais difícil. Vez por outra, extenso, longo e mesmo complicado.

E de repente, quando menos se espera, lá vem ele. Inusitado, diferente, extenso e até mesmo complicado. Não há controle, simplesmente está lá. Tal e qual alguém que lhe diz “isso aqui é seu, faça bom uso, se vire”.

Colocada naquele ponto pelas circunstâncias da vida, avançou em marcha a pé, viagem extensa, de esforço. Daquelas em nome da sobrevivência, não se pode adiar sob pena de ver o tempo passar e permanecer no mesmo lugar.

Não haveria de ser dessa forma, ainda não. Paciente, atenta e dedicada, se preparou como pôde para então empreender a grande empreitada, a travessia tão necessária da vida.

Não havia medo nem falta de coragem, mas também não havia precipitação nem correria. Simples e disciplinada, confiava nas suas habilidades e experiência. 

A maturidade por conta de outras jornadas lhe respaldava a perigosa e difícil iniciativa. Então, sendo assim, o que tiver de ser será. Meta designada, corpo descansado e alimentado, tudo planejado, é hora de começar.

Delineara o campo extenso à frente. Era preciso cruzá-lo. Ao avistar os primeiros raios de sol iniciou a caminhada, pois não podia perder tempo nem cometer erros, o comprometimento poderia ser grande.

Isto, pois o tempo era quente, pela manhã rapidamente chegaria aos trinta graus e ultrapassaria mais rápido ainda. Solo rochoso, consistente e enegrecido pela presença de uma camada de betume espessa. Não havia outro caminho.

Pôs-se em marcha a passo cadenciado e corpo relaxado. O instinto não se credita pelo pior. Não se impressionar com o desafio também ajuda.

Jornada longa se faz a passos lentos. O sol ainda se levantava, o frescor da manhã ainda estava presente. Não havia desassossego, longe disso, ainda não.

Ela prossegue segura e calma. Vislumbra a mata rasteira ao longe, e logo a seguir a grande mancha verde e sem definição, mas já sabe que é a floresta.

Com seus matizes, cheiros e sons, a floresta marca o sinal de chegada e da vitória. Prêmio ao destemor e à vida.

A travessia apenas começou e há muito o que avançar. A grande laje rochosa e cheia de betume é o que a separa do resto de sua existência. Da sombra das árvores, do som dos pássaros.

Seu coração bate mais forte e avança, só a travessia é o que importa. O tempo passa e então é fatal, o calor aumenta. O betume sobre as pedras retém um calor enorme.

Rapidamente seu corpo sente a mudança e a dificuldade da situação. Prossegue com a presteza de uma máquina, o que importa é prosseguir.

Não era estreante neste desafio e não o realizava por luxo ou brincadeira, era por absoluta necessidade. Um dia foi preciso chegar de onde agora estava saindo na infindável busca de viver, de alimento e do abrigo.

A mesma busca impulsiona milhões de seres sobre a terra todos os dias. Poderia estar em outro lugar, mas o lugar era aquele e o momento do esforço estava em transcurso. Agora era por demais  preciso voltar até lá mais uma vez.

Firmando bem a visão divisou ao longe uma faixa estreita de cor muito esbranquiçada, praticamente demarcava o meio da jornada e este se aproximava lentamente.

O sol já se fazia alto e a insolação sobre as rochas, lhe cobrava seu ônus naquele que agora expressava todo o seu terror. O corpo sentia pesada e dolorosamente a onda de calor.

A cintilação fazia as imagens dançarem à sua frente tal e qual fantasmas saídos do fundo da terra.

Chegara na faixa esbranquiçada portadora de algum bem-estar, de algum frescor pelo fato de se chegar, de se cruzar. Não fosse pelo reflexo intenso da luz.

A máquina terrestre, um robô a caminhar, avança pesadamente. A faixa de superfície branca é menor que imaginara. Rapidamente fica para trás e então retorna ao lajeado negro estorricado.

Já se foi metade? Avançou mais da metade? Já está para além da metade? Avançar é o que de fato importa.

Precisa escolher? Então avançou bem mais da metade, e sendo assim a faixa de chegada, é óbvio, nunca esteve tão próxima. Sente os passos no chão e ouve o som abafado por conta do betume.

A algazarra dos pássaros se já sossegou ou não, já não dá mais definição, já não se houve mais os sons da manhã. O esforço todo, a energia toda está focada em caminhar avante. Penosa, pesada, quase cegamente, porém, avança.

Gerações seguidas sobre a terra lhe ensinaram a não se deter. Dominavam vastas extensões deste mundo. Portadoras de um legado construído ao longo de extensa cronologia de conquista dos espaços, mesmo que tivesse que carregar seus rebentos.

Mesmo que tivesse que arrastá-los. Era seu testemunho de coragem e persistência em viver. Divisou a vegetação rasteira agora mais perto, mais viva ao olhar cansado. O cheiro e as cores definem melhor que a pouca visão.

Era mais um alento, já se fazia a bem mais da metade. Já podia se dizer quase, estava quase a chegar. Um enorme e imensurável alento lhe encheu de coragem.

A floresta se divisava mais fácil, mesmo que ainda distante, mas estava lá como sempre esteve. A máquina de caminhar avante, resoluta e disciplinada estava cada vez mais próxima, mais perto do fim daquele lajeado negro causticante, infernal e sem vida.

Caminhar avante, isto vai passar. Sente um cheiro diferente no ar e seu coração vibra, o inferno vai passar. Os primeiros arbustos se delineiam malmente aos olhos e dizem que o final é quem agora está a caminho.

Cada estímulo assume um ar de conquista, de vitória. A solidão inclemente do lajeado já não a assusta mais. O que antes era pesaroso e cruel, agora faz avançar com a mansidão dos fortes.

Dos que são mais capazes; dos mais persistentes. Daqueles que deixaram suas marcas, suas pegadas, seus ossos e suas vidas na lama dos tempos e do mundo.

Na cadência firme de quem foi criada para vencer os desafios inclementes que a realidade sorrateiramente se lhe impõe. Agora não faz diferença, a vegetação se aproxima e o lajeado, sem ossos e sem lama; em breve fará parte de História que ninguém vai contar.

Não cantava a canção da vitória e nem se vangloriava, pois ainda resta um pequeno, mas importante trajeto a percorrer, quando de repente o pior dos pesadelos se pôs a cair sobre sua cabeça. Era o terror.

Um barulho tão estranho quanto medonho se apresenta e aumenta cada vez mais. Agora se faz seguir de um estrondo violento, ensurdecedor e agudo. O som grave se faz mais perto, mas é suplantado pelo agudo profundo que pretende lhe destruir os tímpanos, como um último martírio antes do fim.

É triste fim, triste miséria, tão perto e agora tão longe. Há de viver assim? Há de perecer de modo tão indigente, tão anônimo ao final de um lajeado exterminador?

O som, com a mesma rapidez com que se aproximou, agora se afasta com a sua algazarra estridente indo embora de forma medonha, mas se afastando.

Era para uma síncope? Uma morte súbita para roubar-lhe a paz, a liberdade e a existência? Retomou o passo cadenciado, adentrou a relva seca e avançou rumo ao paraíso na Terra, abençoado berço de segurança, tranquilidade, cores e odores de sonho.

Aproximou-se do Divino presente oferecido aos mais valentes e destemidos. Tributo ao sucesso, a determinação e à firme vontade de viver.

Todos os anos, centenas, talvez milhares de bichos-preguiça são atropelados nas estradas da Amazônia e Brasil central (preguiça comum), mas também nas faixas remanescentes da Mata Atlântica (preguiça-de-coleira). Precisam cruzar a estrada em busca de alimento quando a comida se extingue do lado em que se encontram. Ainda por necessidade de um lugar para ter sua cria e proteger seu filhote.

Sendo assim, ao socorrer o animal, segure pelas costas, nunca de frente, pois suas garras são muito fortes, leve-o para o lado em que estava caminhando. Se fizer o contrário ele vai querer voltar.

Não é considerado um animal em vias de extinção, mas a preguiça-de-coleira já está desaparecendo do nordeste brasileiro. Por só possuir em seu corpo, fibras musculares de força.

Desprovida de fibras musculares de velocidade, só é capaz de movimentos lentos e é muito frágil diante de pedradas, pauladas e atropelamentos, por não poder fugir.

Assim, gostam de apreciar a vida aos poucos, lentamente, sem pressa. Fazendo sempre mais um pouco, um pouco a cada dia; um pouco de cada vez.

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