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terra de espíritos

histórias, crônicas e contos

Uhu, Wavi e a caverna

 

Por: Antonio Mata 

 
Sempre se maravilhou com o que estivesse diante de seus olhos. De atitude contemplativa, enxergava para além daquilo que a forma pudesse lhe mostrar. Conjugava os elementos presentes nas paisagens de sua vida, gerando sentimentos de real valor.
 
Era jovem e já carregava no ventre o seu primeiro rebento. Os cabelos longos por sobre os ombros, ofereciam a beleza natural da idade. A condição de gestante, reforçava o sentimento e sua atitude contemplativa. Wavi estava, sem nenhuma sombra de dúvida, de bem com a vida.
 
No sopé da montanha se dividia as terras em duas partes distintas. Ali se fixaram Wavi e sua gente. Estando de frente para os campos, a natureza exuberante.
 
Campo repleto de flores como que cuidadosamente agrupadas, por sobre a relva toda verdejante, por mão invisível. Se estendendo a perder de vista. Ainda entremeada de belos bosques, aqui e ali. 
 
Naquelas bandas, só que ao longe. Tinha que procurar e muito, para silenciosamente chegar perto. Mesmo Wavi os tinha visto poucas vezes. Grupos de animais pastavam preguiçosamente. Numa vida de silêncios, repasto e muita, muita preguiça. Nos dias de sol forte era possível vê-los amontoados debaixo das árvores.
 
Assim desse modo, às costas estava a montanha. Na realidade uma serra, extensa e elevada. Por entre as rochas, as trilhas que permitiam o acesso aos picos mais altos. Pelo caminho, às vezes, mas também às escondidas, as aberturas que permitiam penetrar nas entranhas das montanhas. Seus lugares sombrios e mágicos. Corredeira de águas frias e claras descia de lá de cima.
 
A montanha, na sua dureza atraía, refrescava, apaziguava e assustava, tudo ao mesmo tempo.
 
Então era assim, a natureza caprichosa fazendo a divisão das terras do mundo benfazejo de Wavi. De um lado as elevações rochosas, do outro, a grande planície.
 
Ainda antes de engravidar, pôde entrar em grande caverna, não sem antes caminhar muito e subir pela trilha, muito exaustiva. Avançou mais alguns passos, caverna adentro e se deteve. Quanto mais avançava mais escuro ficava. Assustada, retrocedeu e retornou para casa.
 
Nas conversas com sua mãe, foi repreendida por ter buscado entrar na caverna. Sua mãe explicou-lhe que as cavernas são domínios de magia, no interior da terra. 
 
— Esquece isso Wavi. Lá não é lugar onde possa encontrar as belezas que você está acostumada a ver aqui do lado de fora. A caverna pode ser muito perigosa.
 
— Perigosa como minha mãe? Você mesma não me falou que já viveu em uma caverna?
 
— Sim, mas isso faz muito tempo. Com as famílias crescendo e a chegada de mais crianças, foi preciso sair. Entre nós, somente Uhu consegue compreender a escuridão e o silêncio das cavernas.
 
Ainda assim, a curiosidade atraía Wavi para a montanha e para a caverna. A aldeia onde aquela gente vivia era recente. A caverna, motivo da curiosidade de Wavi, havia sido descoberta há pouco tempo. Além de ser muito distante e elevada.
 
Contudo, Wavi retornou até lá, dessa vez levando resina retirada das árvores da planície para fazer um archote. Adentrou mais a fundo na caverna. 
 
O que encontrou era diferente do que já tinha visto até ali.
 
Grande parede rochosa em tons claros criavam uma superfície vertical quase plana e lisa. Wavi observou, aproximando bem o archote. Resolveu averiguar sua extensão, tocando com a mão o painel natural. 
 
A superfície da parede, meio brilhante sob a luz do archote, parecia tremular, criando rápidos efeitos de luz. Onde havia mais luz, havia também um efeito. Onde só se tinha pouca luz, outro efeito. Dali em diante era a escuridão. Wavi, na simplicidade de sua juventude, viu beleza naquele pedaço de rocha.
 
Viu beleza na luz sobre a rocha. Na luz sobre a escuridão.
 
Encantada, Wavi retornou para a aldeia, temendo desacatar sua mãe, antes que notassem sua ausência. Na mente juvenil levava luzes; brilhos; cores; tons; texturas; claros e escuros.
 
Na simplicidade da vida primeva, uma artista havia chegado. 
 
Quanto tempo para crescer, quanto tempo para compreender o que se precisa fazer? Precisa mesmo fazer algo? É assim, tão primitivo e selvagem? Agora, vai entender. Desde de quando vida de artista é fácil? Desde de quando se dá sem os eventuais desenganos e as comuns e banais ironias?
 
Lembrando das crianças brincando com pedaços de carvão, quando saíam rabiscando pedras e pedaços de pau, reuniu alguns pedaços e seguiu para a caverna.
 
Lá chegando, dimensionou o tamanho da parede e idealizou seu primeiro desenho. Contemplativa dos belos campos do lugar, quis desenhar uma grande flor. Rabiscou uma grande pétala, deixando aparecer o pistilo. Depois mais uma flor com pistilo, como se uma estivesse de frente para a outra.
 
Demorou para idealizar e completar sua primeira grande obra, tendo desenhado várias vezes na terra e em outras rochas de vários tamanhos, até chegar ao desenho escolhido, que realmente reproduziu na caverna. Completou o desenho. Estava contente e exultante com o resultado.
 
Wavi fizera mágica. Tinha colocado dois belos antúrios bem dentro da caverna. Para ajudar a clarear, quis manter seus antúrios com as pétalas brancas. Por isso, desenhou as flores na parte mais clara do painel.
 
Para adornar ainda mais a laje, colocou outras flores, como se estivessem ao longe. Eram flores de onze-horas. Assim, elas eram representadas com pequenos círculos dos quais saía sempre um risco delgado, representativo dos delicados caules das flores. Ficou magnífico. A caverna estava finalmente iluminada e florida.
 
Tornou a retornar à caverna para fazer alguns retoques e colocar mais uma ou duas flores. Até que certo dia, ao retornar encontrou Uhu. Estava com um sorriso de um canto a outro do rosto.
 
Uma espécie de curandeiro, ou qualquer coisa parecida, Uhu era aquela pessoa que, na aldeia, havia se tornado o xamã. O homem que fazia contado com os espíritos da caverna.
 
Em outra ocasião Uhu apareceu todo sorridente mais uma vez. Wavi ficou intrigada com aquilo. Por que aquele sorriso meio forçado, meio irônico? O que estaria querendo lhe dizer?
 
Quando chegou junto à sua mãe, não gostou do que viu. Estava de mal humor e foi logo perguntando o que fazia no alto da montanha que demorava tanto. 
 
Wavi explicou que recolhia ervas para fazer beberagens, além de experimentar reproduzir cores macerando as mesmas. Sua mãe não acreditou e então, foi proibida de retornar à montanha.
 
Vários meses se passaram, antes que lhe fosse permitido subir a montanha mais uma vez. Também teve de ceder a uma ordem de seus pais no sentido de se unir a Uhu. Com o que acabou, forçosamente concordando.
 
Carregando na barriga o seu primeiro filho, Wavi mais uma vez subiu a montanha.
 
Finalmente pôde retornar à caverna, que tão habilmente tinha decorado com seus desenhos. Mais uma vez, Uhu lhe ofereceu aquele sorriso irônico de quem escondia alguma coisa. 
 
Entretanto, dessa vez, não seria por muito tempo. Iluminou a parede da caverna. Ao rever suas flores mais uma vez, Wavi foi tomada de um rude e profundo impacto.
 
Onde deixara um par de antúrios e um campo de onze-horas iluminando tudo, clareando o paredão e falando da beleza que existe lá fora, agora existia outra coisa.
 
Viu dois grandes animais em posição luta, como se um avançasse sobre o outro. Ao redor, ao invés de suas onze-horas, o que estava na parede eram representações primárias de seres humanos. Alguns com os braços levantados segurando lanças. Tal e qual os primeiros desenhos feitos por uma criança.
 
O que um dia fora um jardim, havia sido transformado em um campo de caça. Uhu comentava, todo satisfeito e sorridente.
 
— Veja como ficou. Completei todo o seu desenho. Veja os caçadores. Veja os animais lutando. Os caçadores só estão esperando que um deles se canse para poder atacar e conseguir bastante carne. Eles são muito inteligentes!
 
Uhu contava e mostrava seu sorriso. Agora transformado no sorriso de um idiota aos olhos de Wavi.
 
— Eu trouxe mais carvão e resina. Assim você poderá fazer mais desenhos. Aí eu mesmo completo depois.
 
Continuava com seu sorriso idiota.
 
— Wavi, mostrei os desenhos para os caçadores. Eles gostaram e pediram para fazer mais.
 
— Disse a eles que eu havia desenhado flores aqui?
 
Uhu, abriu mais uma vez aquele sorriso idiota.
 
— Isso eu não posso fazer. Eu sou o xamã, na minha caverna.
 
De fato, na vida a beleza está nos olhos de quem vê. Mesmo sendo um oportunista e dono de uma caverna.
 
                                             FIM

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