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                                                                                                                                                       Foto: Pixabay

Por: Antonio Mata

O barulho da porta se fechando indicava que a casa estaria vazia. Não que isto importasse muito, ou fizesse diferença. Se sucedia de forma mecânica, como toda rotina costuma ser.

Por descuido, mas também por um certo e indisfarçável abandono, o lugar não sabia o que era limpeza há um bom tempo. Os cômodos improvisados para outras aplicações, que não as convencionais, davam na pinta que o lugar malcheiroso servia a outro tipo de coisa.

Uma tela de náilon, inteiriça e mal colocada, fechava diversos criatórios, onde diversos camaleões de espécies distintas aguardavam o momento da comercialização ilegal. O negócio até que havia começado a partir de iniciativas bem conduzidas, mesmo sendo tudo fora dos preceitos da lei. Talvez por se querer fazer isso em outra oportunidade.

A falta do retorno financeiro esperado, o excesso de trabalho na manutenção dos animais e das instalações, a ilegalidade da criação, conflitos entre os envolvidos, ou ainda um somatório de tudo isso. O fato é que em um dado momento, deu tudo errado.

Foi através daquela tela de náilon, onde um dos animais se meteu por debaixo. As caixas onde os animais ficavam em isolamento, eram tal e qual escaninhos, ou slots, improvisados a partir de uma mesma peça de madeira.

O primeiro camaleão estava conseguindo sair dali. O movimento forçou o canto da caixa ao lado, onde outro camaleão também se meteu, descendo em seguida para o chão.

No espaço de pouco mais de uma hora, pelo menos meia dúzia de camaleões estavam passeando pela casa, fazendo o reconhecimento do terreno. O último a descer da sua caixa, foi também o primeiro a não se interessar pela casa e sim pela porta dos fundos, ao final de um corredor. Na verdade, era um portão gradeado que dava acesso ao quintal.

Saiu na frente parando para tomar sol, em seguida ao explorar o quintal, não foi difícil encontrar um buraco no muro dos fundos. Como uma tropa organizada, os animais, andando pelos cantos do muro, acabavam chegando no mesmo lugar e deixando o lugar da mesma forma, após tomarem sua dose de sol.

Ganhavam um matagal ressecado por sobre um declive. Bastou descer a pequena encosta e estavam em um parque municipal. O lugar, bem frequentado nos fins de semana e no final da tarde. Por ser manhã de uma quarta-feira, estava quase sem movimento.

Um por um foram assumindo a cor de mato e terra seca da encosta, o que ocultava mais ainda os recém-chegados. Territorialistas e portadores de hábitos solitários, lentamente caminhavam, enquanto observavam, com um dos olhos, a encosta deixada para trás e a posição dos demais incursores. Com o outro olho, escrutinavam adiante, identificando tudo pelo caminho.

— Reek, Reek, Reaaah, Xiiiiih. Barulheira de camaleão enquanto se ajeitavam pelo parque. Assegurando que poderiam cruzar uma pista e se aproximar de um lago.

Reconhecimento, tomaram a segunda e melhor providência que poderiam ter feito no momento.

— Reek, Greeeh, Jéééiii, Uhuuuu, Uhuuu! Borboletas para comer!

Era hora de encher a barriga com centenas de borboletas, lavadeiras sobrevoando a beira do lago e insetos terrestres. Sem maior esforço, mimetizados com os tons mais esverdeados próximos ao lago, bastava esperar pelos transeuntes.

A língua de um metro e ponta pegajosa, lançada de forma ultra rápida, não dava chance de reação. Interceptava alados e terrestres com a mesma facilidade.

Abriram uma distância de uns dez a quinze metros entre um e outro. Tudo sempre acompanhado com o olhar de 360 graus, que registrava detalhadamente tudo.

Prosseguiam avançando sempre. Fosse por descuido ou por não reconhecer os riscos, não avistaram a silhueta de um animal absolutamente imóvel que os observava igualmente acerca de uns trinta metros dali.

O camaleão-do-Iêmen, acomodou-se em cima de um galho, onde podia enxergar mais ao longe. Com a cauda enrolada no galho e o verde e laranja brilhantes sobre cinzento, não deixavam a menor impressão de que estivesse interessado em se esconder. Começou a emitir seus sons, tão exóticos quanto ele próprio.

— UHuuu, Guiiiii, Guiiii, Aaargh!

Essa barulheira prendeu a atenção do observador à meia distância, fazendo com movesse a cabeça verde levemente. Foi o suficiente para que o árabe do deserto detectasse.

Em seguida foi a vez de um camaleão-pantera, de Madagascar, ornado em listras verdes claras e escuras se misturando com o galho onde também se encontrava empoleirado.

Ao avistar o estranho que os observava próximo do lago, em uns 20 segundos mudou de cor, recebendo um vermelho vivo na primeira metade do corpo, misturado com os tons de verde.

Estava preocupado com o avistamento feito ali na frente. Tratou de avisar aos demais, ainda que não fossem propriamente seus amigos. Um olho cravado no estranho e o outro percorria os espaços, em busca dos demais. Queria ter certeza de que todos tinham recebido o alerta.

Os camaleões espalhados pela borda do lago, agora só tinham uma ocupação, querer identificar o sujeito silencioso que insistia em encará-los. Era grande ou era só uma falsa impressão? Só havia um jeito de saber. Começaram a se aproximar lentamente do bicho, exibindo ares de poucos amigos.

Passando afastados do desconhecido, puderam constatar que o bicho era bem maior doque imaginavam logo de início. Como estavam em maior número, a ideia era sumir com ele dali e assumir o parque. Só que primeiro teriam que tirá-lo dali.

Fizeram uma meia lua ao redor, com o bicho ao centro, este de costas para o lago.

— Reeeeg, Aaargh, Riiii! Vai ter que sair daqui ô verde desbotado. A área agora é nossa. Se reagir já sabe que você apanha.

O recado foi claro, contudo, o bicho permaneceu em silencio, observando tudo e todos.

Foi a vez de um camaleão-de-Jackson entrar na disputa, dando o seu recado, procurando assustar o bicho silencioso com seus três chifres encimados em uma cara de mau. Tudo apoiado em seus 25 centímetros de comprimento de abuso e valentia.

— Iiirg, Iiiirg, Keeerrr!  Não está entendendo não? Vai querer uma pifa primeiro? É sem noção é?

O bicho, imóvel, não dava ares de se preocupar com aquele filhote colorido de cruz credo, meio castanho, meio cinzento por estar no descampado e com a cauda esticada sobre o asfalto.

Foi um certo camaleão Meller, o gigante africano de um chifre só, quem resolveu acabar com aquela história toda e deu um ultimado ao esverdeado ali no meio.

— Kooog, Haaarg, Uhuuuu! Vou contar até três. Se ao final da contagem, você não tiver dado o fora deste lago e deste lugar, vai tomar a maior surra que você já tomou na vida!

O gigante de 60 centímetros, então abriu contagem.

— Hiiig, Errrg! É um...

Nada do esverdeado se mexer.

— Hooook, Huuuk, Riii! É dois...

O esverdeado nem piscou.

Foi quando Meller deu seu grito de guerra, chamando a atenção dos demais para a investida que iria começar naquele instante.

— Roouork, Roourk, Gaaaarrh! Gréiii! Uhuuu, Uhruuu! Peguem ele agora, agora!

Um barulho de dezenas de patas escorregando e tracionando por sobre a terra perto do lago, mostrava que os camaleões não estavam para brincadeira. De bocas abertas correram na direção do esverdeado.

O embate, repleto de lances dramáticos, golpes de muita agilidade, destreza, força e coragem. Com os bichos ora por cima, ora por baixo. Podia ser resumido, assim:

Três segundos de luta feroz.

Da imobilidade a sucessivas, violentas e perigosas voltas de 360 graus, o esverdeado lançava chicotadas certeiras com sua cauda de 1,3 metro, na altura das cabeças dos camaleões. O Meller, o gigante africano, tomou um golpe certeiro nas fuças que quase lhe arrancou um olho. Jackson da cara de mau, o mais abusado, levou outra, subindo no ar mais de metro. Caiu a uns três metros dali, ganindo igual um cachorro.

Pantera tomou uma lapada na cabeça e no rosto, indo parar dentro do lago, de onde só saiu para fugir dali. Final dos três segundos, acabou o combate. O resto dos invasores debandou.

Nem uma única câmera, nem em preto e branco, nenhum celular, nem uma polaroid ou uma máquina caixote perdida, qualquer coisa. Ninguém pôde assistiu aquele combate tão incomum quanto espetacular.

Um guarda municipal, de serviço no lugar, ainda pôde ver alguns bichos coloridos correndo para todos os lados. Como não conhecesse aqueles animais, achou por bem acionar o batalhão ambiental para cuidar do caso.

Não foi sem trabalho que conseguiram recolher, utilizando uma rede, pelo menos quatro camaleões, um deles sangrando. Foram levados a crer que seria fruto de algum mal trato, o que despertou a atenção dos policiais, quanto a quem poderia ter deixado os animais no parque da lagoa, ou ainda se teriam fugido.

Quem poderia estar mantendo tantos animais exóticos e em condições tão precárias? Pareciam raros e, portanto, valiosos. Bastou investigar por perto para descobrirem o local, a casa que funcionava como depósito de animais. Aguardaram que alguém aparecesse e todo o resto, foi mero registro policial.

Junto ao lago, o lagarto esverdeado de dois metros de ponta a cabeça, o autóctone, o nativo, o pacato iguana, esperava que algum bicho se aproximasse.

Borboletas, lavadeiras e até pequenos pássaros já faziam parte da sua dieta habitual, e não teria mais que compartilhá-la com estranhos. É a natureza.

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