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Velas do Mucuripe

                                                                 

                                                                                                                                                   Foto: Wikimedia commons

Por: Antonio Mata

Bastou aguardar um pouco. O suficiente para que o movimento se fizesse. Mãos nos bolsos, o passo é despreocupado, olhando em volta calmamente, com ar de quem já viu, já entendeu, e que por isso sabe das coisas.

Já era furado e velho, o propósito, a atitude e o sorriso amarelo, quanto mais a história. Até desconfiava ao pensar nisso, e justificava a si mesmo, “fazer o quê, um dia dá certo”. Tinha lá sua razão, afinal, somos humanos porque somos errados.

De qualquer forma, quando lá chegasse, descobriria um bocado de gente, e uma coletânea de mesmos propósitos, atitudes e sorrisos. Deu a lógica e está tudo normal, não era um encontro de alienígenas, se é que alguém já pensava nisso.

Era só uma festa no bairro, e os rapazes trabalhadores, e os vagabundos também, lá se encontrariam com as moças do lugar. Alguma coisa tinha que justificar aquela calça que custou uma nota. Desejava participar de todas as festas, todos os encontros, todos os forrós, dali em diante. Aquilo tinha que valer a pena, quer dizer, tinha que ser pago.

Em pensar que até dias antes, acalentava outras ideias, pensava em outras questões na esperança de abrir um espaço, uma brecha, que o levasse para além daquilo que já estava na frente dos olhos.

Tinha escutado uma história de algo que faziam com o peixe. Na realidade descobrira que transformavam ele em um monte de coisas. Falavam de cola, ração, farinha, remédio. Surgiu até uma história sobre sapatos e bolsas.

Pensava consigo mesmo, “isso é mentira, quem é que vai calçar um sapato que foi feito de peixe?”. Já tinha visto peixe seco. Ezequiel secava peixe para vender na feira, mais além, no sertão. Já sabia que não dava muita coisa, mas ele nunca parou de fazer.

O resto dependia de dinheiro, equipamento e conhecimento. Era só isso, era a parte que lhe faltava, para que tudo desse certo, pensava absorto. Desgraçadamente não tinha nenhum dos três.

— Quer mesmo saber, sabe o que vou fazer? Vou comprar aquela calça de riscado e vou pra festa com as meninas. Já estão aqui mesmo e dá muito mais futuro.

Falava para si mesmo decidido, balançando a cabeça e com aquele trejeito na boca, de quem desconfia das coisas.

E foi assim que aquela bela trajetória de empreendedorismo e sucesso, desbravando mercados, possibilidades e oportunidades de enriquecimento, findou-se em menos de uma semana. Tudo bem que ainda faltava pedir o terno emprestado do tio Henrique. Essa tarefa era bem mais fácil, pois o tio lhe tinha em grande consideração, e não lhe negaria algo tão pequeno. Não era para dar, era só para emprestar, e era só no dia da festa.

Abandonou tais ideias sem pé e sem cabeça. Deixou de sonhar acordado e decidiu, ainda que a caminho do encontro com as moças, que não iria mais se preocupar em parecer importante e em ser aquilo que nunca foi. O jeito comedido de sorriso amarelo seria deixado de lado, em favor daquilo que sempre foi.

— Quem quiser que me aceite como eu sou. E quem não quiser, que não aceite. E é assim que vai ser.

Chegava na festa de rua, na realidade um descampado todo enfeitado, no estilo das festas de igreja. Quantas mais ilusões houvesse, o fato é que havia deixado um lote delas pelo caminho, nos últimos dias, e enquanto se dirigia ao local. Era noite de festa, e era por isso que estava ali, metido naquele paletó, e naqueles sapatos apertados pela falta do costume.

Ritinha; Solange; Francisca; Ana Lucia, apareceu todo mundo. Festa de rua não é lugar para se esconder, nem para se esquecer daquilo que a cidade toda já sabe. Todo mundo conhece todo mundo. Parou à meia distância, observando aquela quantidade de garotos, de chapéu, terno e gravata.

Achou graça ao pensar em certas famílias que faziam os filhos se vestirem todos da mesma forma. Era como se todos tivessem saído da mesma rua, da mesma casa, da mesma família, para ir para o mesmo lugar, e com o mesmo propósito.

Abaixou a cabeça, disfarçando o jeito meio patético, por estar rindo de si mesmo, ao pensar alto uma coisa.

— Onde foi que arranjaram tanto paletó branco emprestado?

Deu-se por satisfeito ao entender, que ao menos não estava naquela coluna de pessoas até bem trajadas, porém perdendo seu tempo, se fazendo de importantes. Nem se davam conta que no dia seguinte, seriam vistos na padaria, na quitanda, no bazar, e até na vagabundagem.

Não custou grande coisa e logo, numa busca de olhos, encontrou Maria da Encarnação. Tão linda no vestido com renda de bilros, e tão fácil de entender por que é que existe tanta Mariazinha.

Já a conhecia havia poucos dias, aliás o fato de conhecê-la, muito contribuiu para as decisões tomadas até naqueles últimos minutos. Ainda que não estivesse lá muito preocupado com relações sérias, mais ao gosto da maioria das moças, seria injusto desconsiderar a presença de Mariazinha, metida naquele vestido e caminhando em sua direção, sorridente e sem pressa.

Não poderia mentir para si mesmo, já havia encontrado quem procurava, quem motivou aquela reconstrução toda. Era chato, mas era muita verdade, Ritinha; Solange; Francisca; Ana Lucia, e naquele momento, quem mais viesse não teriam a capacidade de fazê-lo se meter naquele par de sapatos apertados, sendo que a festa mal começara.

— Achei você elegante.

Comentava Mariazinha, por entre sorrisos, com relação ao resultado daquela empreitada.

— Obrigado, você também ficou muito bonita. E aí, tudo bem com você?

— Tudo, papai fechou cedo a banca e veio pra casa logo. Assim que ele chegou, parei com a folhetaria e fui logo me arrumar.

— Ah, que bom. Então você trabalha em casa, como é uma folhetaria?

— Eu lhe conto, papai é impressor de cordel, e nos fundos da casa montou-se a folhetaria, para imprimir e montar os cordéis que serão vendidos na cidade.

Mariazinha contava, no nível do detalhe, a aventura de Messias,  seu pai, um apreciador e impressor de cordel.

— Papai imprime, depois distribui na cidade e manda os pacotes no trem pra vender nas feiras, no interior. Vende na banca também. Aliás foi assim que ele começou no cordel. E completou.

— Quando ele está fora, eu ajudo na impressão. Houve um tempo em que ele quis escrever, mas não achou que levasse muito jeito com a rima, e ficou só como vendedor e impressor.

Sabia daqueles livrinhos vendidos na feira e nas ruas, mas nunca havia se deparado com alguém que lhe contasse como era viver fazendo cordel. Então era assim, havia gente que escrevia cordel, imprimia cordel, distribuía e vendia cordel.

Não foi difícil atrair a sua própria pequenez, que rapidamente se manifestou. Mariazinha vinha de uma família, que aparentemente gostava de cordel. Aquele moço de terno branco e calça riscada vinha de um tipo de gente que não escrevia cordel, não imprimia, não distribuía,  não vendia e nem lia coisa nenhuma, quanto mais cordel. Aliás, jornal na casa do moço, só servia para..., bom deixa pra lá, esse não é o assunto.

Uma gente que lia, que gostava da leitura e vivia de seus leitores. Então era verdade, no meio daquela turba inculta, havia pessoas que gostavam de tais coisas. Bobagem procurar alienígenas, ele próprio era um e nem sabia disso, sequer tinha escutado falar nisso.

O paletó de linho branco, de chapéu quebrado, o esforço honesto para ser natural e espontâneo, a satisfação de encontrar boa companhia no meio daquele monte de gente. De um lado parecia que tudo tinha dado certo. Do outro, já não sabia mais o que dizer, muito menos o que pensar. Foi tão flagrantemente enquadrado que ficou ali, diante de Mariazinha sem dizer palavra. O sorriso ingênuo e franco começava a perder o brilho.

Foi salvo pela própria Mariazinha que interveio, antes que resolvesse sumir dali mudo e de cabeça baixa, tal e qual um jumento.

— Raimundo, não fica assim não. Eu sei que você é pescador, já me contaram. Imagino que tenha pedido roupa emprestada com alguém para poder estar aqui. Dizia Mariazinha, procurando sossegar o garoto, e contava.

— Meu pai também se esforça muito para viver trabalhando com cordel. É preciso vender bastante, se quiser ganhar alguma coisa. Prosseguia, querendo sossegar Raimundo.

— Na pesca não acontece o mesmo? Se seu pai não tiver muito peixe para vender, como vocês vão conseguir dinheiro?

— Também já me contaram que você trabalha com seu pai, não é assim? Não liga não, Raimundo. Eu estou aqui porque quero. Vim até aqui e esperei você, porque quis.

A garrucha velha tinha estourado na mão do Raimundo.

Chegou interessado em um namoro despretensioso e sem maiores vinculações. Achou uma garota que tinha tudo a ver aos olhos do moço. Bastou conversar mais um pouco e já se sentia longe. Ela vinha de um mundo que lia.

Meio sem graça, pegou Mariazinha pela mão e continuaram caminhando, como quem orbita aquele campo. Entre um assunto e outro, o garoto balbuciava alguma coisa aqui e ali, procurando lembrar de alguma passagem interessante.

Bastava Mariazinha tomar a palavra e ela mostrava sua curiosidade e versatilidade, que, como explicava, floresceu com o cordel, mas que a ajudou a abrir caminho para outros livros. E a menina adorava falar abertamente sobre isso.

De uma forma simples e barata, as histórias do povo; a poesia popular; a política; a música; o noticiário do rádio; as fofocas das estações de trem; histórias de outros povos, uma coleção de temas aparecia e povoava as linhas do cordel.

Raimundo sentiu-se atraiçoado. De um lado ficar junto dela, era tudo o que queria. Do outro, a promessa de um romance verdadeiro, algo para além dos seus melhores planos. Namorar para casar, é assim que chamavam. Era tudo o que não queria.

Em um espaço reservado para a música e para dançar, alguém convidava os casais a participar da festa. Era sanfona, caixa e triângulo, como de costume e como gostavam.

Assim entre a dança, conversas e a música a noite se alongou, até o momento em que Lorena, prima de Mariazinha veio avisar que já era tarde. Evidente que Mariazinha não teria chegado sozinha, ter olheiros por perto faz parte.

Despediu-se e ficou observando a garota se afastar na companhia da prima. E para Raimundo, isso foi tudo, ou ao final das contas, não foi nada. Dependendo apenas do sentimento que prevalecer no peito do garoto Raimundo.

Na manhã seguinte teria de acompanhar seu pai, e a ideia de dormir cedo, pelo menos passou a ter um propósito. Deu meia volta, avançou um bocado, e tão logo se notou sozinho, tirou  aqueles sapatos e seguiu para casa, junto à praia, com a lancha no chão, bem mais ao seu estilo.

Lá pelas três e meia seu pai lhe sacudia para acordar. Bastava um gole de café e já estariam levantando vela. No caminho, em meio à escuridão, seu pai puxava conversa com um Raimundo distante e silencioso.

— E aí, como foi a festa ontem, estava animada?

— Ah, muito pai, muito.

— E não aconteceu mais nada?

— É..., até que não.

— Tem certeza de que não aconteceu nada mesmo? Você não é cabra silencioso que eu sei. Quando quer, fala até demais.

— Eu sei..., é sim. Aconteceram umas coisas, mas estou pensando ainda.

— Você está com cara de cabra apaixonado Raimundo.

— É..., não sei, acho que não.

— Tá bom, quando quiser você fala meu filho

— Tá bom pai.

— Agora é pegar logo o caminho do mar, Raimundo. O céu está estrelado, sinal de que tudo vai terminar cedo, senão o sol vai arrancar o couro da gente. Ainda é março, de maré alta e lua cheia logo no início. É aproveitar porque ainda é dia de peixe. Depois, só com Jesus na causa.

Na praia, encontraram Mário magrão, que os acompanharia na lida. Deixaram a jangada rolar por cima dos paus, até o mar. Ainda na escuridão já estavam com vela ao vento se afastando calmamente do litoral. Agora experiência, conhecimentos náuticos rudimentares, coragem e tradição se juntavam para assegurar o alimento de casa e algum dinheiro, em um dos ofícios mais antigos do mundo. O primeiro navegante foi um pescador.

Enquanto a jangada desliza ligeira mar adentro, e seu pai sonha com badejo, serra, ou cações, Raimundo prossegue na sua indefinição. O céu estrelado convidava ao final das dúvidas e ao reconhecimento do óbvio, ele gostava da moça. Não admitia por pura teimosia. Não fosse assim, já teria imaginado uma forma de encerrar com aquilo rápido. Só que era este o problema, não queria se livrar de Maria da Encarnação.

Já na noite seguinte, tornou a vê-la, assim como todas as noites outras ao longo da semana e por todo o mês. Com os meses avançando, era sempre Maria quem puxava o assunto.

— Como é o mar?

— Como é, como assim? Retrucava Raimundo.

— Como você o enxerga, como é estar lá no fundo. O que você sente?

— Como eu vejo. Sei que é profundo, mas não enxergo isso. Já nas noites de lua cheia a superfície do mar é um espetáculo. Às vezes assustador, às vezes um espetáculo. Quando o céu está estrelado, parecem se ligar um com o outro. Cada um é do seu jeito, mas se tocam e seguem assim, sempre juntos.

Mariazinha aproveitou a deixa e emendou.

— E a gente não pode fazer a mesma coisa? Cada um é do seu jeito, mas ligados, e então se segue junto. Não é assim?

A sugestão de Mariazinha era honesta e singela, apoiada em uma gama de impressões e sentimentos expressos pelo próprio Raimundo. Não era tolo, sabia que mais dia, menos dia, aquilo iria acontecer. Protelou porque quis, ou era tolo, por protelar.

— Maria, eu ainda pesco na jangada de papai. Não tenho sequer minha própria embarcação. O que se ganha não é meu, é de toda minha família. Você compreende isso?

— Eu sei, e compreendo sim. Então queria lhe fazer uma proposta, uma coisa boa, honesta, e que tem boa chance de dar certo.

— Proposta é? De quê afinal?

— Você me passa as histórias do mar. Eu já tenho anotado tudo o que você me conta. Aí eu escrevo, repasso para o meu pai, ele imprime e depois é só distribuir e vender. Muita gente vai querer saber das tuas histórias, Raimundo. É por isso que eu te digo que tem tudo para dar certo.

Raimundo achou graça da iniciativa da moça. Nunca se havia imaginado sequer como autor de coisa alguma, quanto mais de cordel. Achava sua prosa muito pobre e sua poesia, inexistente. Tal e qual o pai de Mariazinha.

— Eu vou fazer cordel Maria? Não sirvo para isso não.

— Não é só você Raimundo, somos nós. Nós dois vamos fazer, vamos escrever e contar, através do cordel. Completava Maria sorrindo e cheia de certezas. Raimundo só precisava das suas.

— Pensa Raimundo, pensa um pouco e então me responde.

Abraçou e beijou carinhosamente o rapaz, antes de se despedir. Era honesta e gentil com ele. Raimundo era confuso e acabrunhado consigo mesmo. As certezas que possuía, eram aquelas que o mar podia lhe dar, e isto lhe bastava.

Três meses já passados, e mais uma vez observava a moça pequena se afastando como fizera tantas vezes antes. Agora trazia propostas de algo novo, consistente. Algo para o garoto colocar na sua lista de possibilidades, aquelas que nunca avançaram, que nunca o conduziram a lugar nenhum. Peixe de papel, jangada de lápis; num mar de palavras.

Maria dessa vez, o atraía para um universo novo, a se explorar. Mais do que isso, o atraía para a sua própria órbita. Raimundo, fiel às suas raízes,  estava mais interessado no que aprendera com o pai, que aprendera com o avô, que era filho de pescador.

Sua gente cheirava a maresia. Não era de modo algum, um orgulho tolo de tradição de família. Aquela vida trazia o seu sentido de liberdade e completude. Não queria que mudasse.

No espaço de alguns poucos dias, Mariazinha voltou. Dessa vez, além do sorriso bonito e juvenil no rosto, trazia as mãos para trás, como que enlaçadas, como quem faz surpresa. Foi logo se adiantando.

— Vai ter que adivinhar. Se acertar ganha um beijo.

A moça ficou aguardando a resposta, no rosto o habitual sorriso. Quem chegara pretendendo se adiantar, de fato, foi Raimundo. Seu olhar não falava de participar da brincadeira oferecida por Maria. Já trazia outro discurso consigo. Diferente, enviesado, honesto, mas para o pequeno universo juvenil de Maria, mais que enviesado, se mostraria avassalador.

— Mariazinha, olha eu pensei muito, pensei na gente. Pensei no que um quer, e naquilo que o outro quer. Eu pensei muito..., e cheguei à conclusão de que somos pessoas diferentes.

O sorriso de Maria se perdeu, enquanto Raimundo prosseguia.

— Eu não vi isso antes Mariazinha. A culpa foi minha, eu não vi o que estava acontecendo. Simplesmente gostava da sua presença, mas isso não é o suficiente. É melhor parar aqui Maria, não vejo outro jeito.

A pequena Maria continuava com as mãos para trás. Havia congelado, petrificado. Uma daquelas situações em que habitualmente se diz, que a terra desapareceu debaixo dos pés. Não sentia vontade de falar, não saberia o que dizer.

Olhava Raimundo nos olhos, sem expressar sentimento algum, a ponto de incomodar o garoto com aquela inação. Rompeu a paralisia estendendo a mão na direção de Raimundo, contendo um pequeno pacote em papel de presente.

Quando Raimundo pegou aquilo que seria o motivo da surpresa, o motivo de um novo tempo, de novos horizontes em comum, Mariazinha deu as costas. A moça pequena afastou-se, em passo tranquilo, sem dizer palavra. Estavam no mesmo local onde haviam se encontrado para uma festa de rua, havia poucos meses. Raimundo a acompanhou com o olhar até a moça sumir na esquina. Foi a última vez que a viu.

Abriu o pacote feito com esmero, e lá estava o seu presente, aquele que haveria de presentear a ambos. Era um livreto de cordel, daqueles que se compra na rua. A mesma caracterização simples e barata. Colocou o livreto no bolso e se afastou.    

Já em casa, deixa o livreto em cima de alguma coisa e se ajeita na cama. Sentia-se estranhamente vazio, quando esperava estar aliviado. Afinal, se desejava a sua liberdade de volta, acabara de obtê-la. A vida é assim, em algum momento algo haveria de se definir. Se prestigiava e priorizava as coisas do mar, acabaria por assumir.

Madrugada alta, se levanta e junta-se a seu pai. Encontram Mário magrão e prosseguem para a lida. Outras equipagens já estão na praia, cuidando de preparar as jangadas. Mais uma vez as velas do Mucuripe vão sair para pescar. O som é o habitual, homens manobrando o barco e o marulhar das ondas na escuridão. Raimundo trabalha em silêncio, se concentra no que está fazendo. É Mário magrão quem quebra aquela quietude.

A noite tá estrelada de novo. Olha só quem tá ali, é o cruzeiro. É o cruzeiro Raimundo, tá vendo?

Eu tô, é ele mesmo..., é dela.

 

O cordel intitulado “Aqueles que vivem do mar”, e com ele as impressões, sentimentos e visões, a respeito de um tipo especial de gente, foi um grande sucesso sendo reimpresso por diversas vezes. Mariazinha prosseguiu escrevendo sobre o mar, sobre pescadores, embarcações e as populações tradicionais do litoral do Ceará.

Ambientava suas histórias e tramas, nas pequenas vilas e cidades de praia, a tal ponto de passarem a ser conhecidas pelo nome. As pessoas queriam se situar, os leitores queriam identificar o cenário da história. Com os pacotes de cordel sendo embarcados de trem, como de costume para serem vendidos nas feiras do interior. Foi assim que o mar chegou no sertão.

Mas foi o seu primeiro cordel que abriu este cenário imaginário do mar, já representado por autores de sucesso no mundo todo. Mariazinha a partir das conversas com Raimundo, delineou uma gente que se enamora a tal ponto com o mar que não o troca por outra coisa, nem por outra vida.

Gente que constrói relações de pertença com a imensidão do azul, a partir de um ponto, um pontinho na terra, na foz, na restinga, na praia. Que constrói o seu sentido de grandeza d´alma, por entre as ondas do mar.

Na tranquilidade da imensidão azul, buscava as estrelas no céu, o horizonte não dava definição. Olha então para suas mãos envelhecidas pelas ondas e pelo tempo. O velho avança calmo e solitário por sobre as escolhas que fez e cumpriu.

Lembra da moça bonita de tantos tempos passados, e das histórias que contou e espalhou pelos confins. Saudoso sorri, ele a enxerga nas ondas; no horizonte que ainda se delineia; no vento que sopra. E aquelas estrelas que estão ali, formam o Cruzeiro do sul. Na estrela da esquerda há um garoto que chega para dançar, e aquela outra logo à direita, é sim..., é dela.   

O mar é infinito, as canções, estas são imortais.

 

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