Por: Antonio Mata
Chove sempre ali a ponto de fazer lagunas, na verdade, poças d'água. Águas temporárias por entre as árvores. Bastando para tanto que haja uma depressão onde possam se acomodar. Feito isto a vida cuida do resto.
O bando colocou-se no ar em voo frenético, turbilhonando as águas com seu movimento alado. A Ligeira sucessão de ondulações chamou a atenção de um vigilante pardal.
Este mergulhou no meio daquela minúscula esquadrilha
repleta de asinhas. Principiou um vai e vem alimentício. Uma trajetória fazendo uma curva de concavidade para baixo. Recolhia um, dois e até três por passagem. Nada mal para um pardal solitário.
Logo ali em baixo, o bando de adultos alados parecia não querer se desfazer. Na loteria da vida, delineavam decisões e planos.
— Me acompanhem, me sigam até aquela árvore! Sempre em frente, sempre em frente! Não se detenham por nada! Cuidado com os pássaros! A proteção está na árvore!
Na medida que a manhã avançava, o sol podia queimar seus corpos. Em campo aberto estavam expostos às inclemências do ambiente.
— Rápido, façam isso rápido! Cuidado com os pardais! Cuidado com o sol, com o vento, com a chuva, com os sapos, com gafanhotos, lacraias e morcegos! Atenção com qualquer coisa que se mova e se aproxime de vocês! A árvore, cheguem na árvore!
Solícito e atento aos demais, por vezes buscava fazer uma recontagem para saber se o bando ainda existia ou se já havia se perdido.
— Onde está o Joãozinho?
— Já morreu!
— Onde está Nestor!
— Já morreu!
— E Chiquinho onde está!
— Já morreu!
— E quem são estes aí em volta?
— Não sei, não deu tempo de conhecer todo mundo!
— Mas, o que estão fazendo aqui?
— Uai! Não foi você que disse para ir para a árvore? Estão indo para lá também!
— Então prossigam! Prossigam sem parar! Agora falta pouco, falta muito pouco!
Olhou para trás e viu centenas de efemérides caindo no lago.
— Depressa, insistam, persistam, não desistam!
— Estão cansados, estão com fome, estão...
— Ramon, Ramon, só mais um pouco, Ramon. Estamos chegando!
Ramon caía, de cansaço, de fome, com as articulações feridas no esforço hercúleo. Juntou-se aos milhares de pequenos corpos tombados no lago.
Da Veiga, intrépido e decidido, seguiu adiante. Mais uns cinco metros e meio pelo menos. Os antigos companheiros de dois minutos atrás, já não estavam mais ali.
Muito frágeis, são alvos fáceis. Por isso procuram saltar em seus voos curtos, para escapar de seus predadores. Sem estômago, não podem repor as energias. Daí a vida de uns poucos dias ou mesmo, umas 24 horas. Ainda assim, são corajosas e decididas, vivendo em ambientes restritos. Mas, absolutamente hostis.
O dia acabou com um pardal satisfeito e de papo cheio e um lago raso repleto de efemérides mortas. No dia seguinte o terreno secou e outros seres minúsculos se aproximaram para ocupar o lugar e devorar o que restou. Estavam a uns oito metros da árvore. Que, aliás, poderia ser tudo, menos segura.