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terra de espíritos

histórias, crônicas e contos

A morte de Apolônio

Por Antonio Mata:

Inclemente, solitário, duro e seco. Vento não havia nenhum. Não gosta dali. O soprar seco e sem vida por cima dos moribundos, nenhum vento quer mais. Já passou não passa mais.

O cavalo magro e velho ainda teria de fazer mais de quatro léguas com aquele estrupício por cima do lombo. O estrupício, um antigo boiadeiro, magro e velho, o homem altivo de outros tempos. Não havia mais água nem gado algum, só poeira e sol. Haveria de encontrar mais adiante pequeno povoado, se ainda existisse no lugar, com tanta gente indo embora. Não o via nem em miragem no ar quente.

O cavalo, exausto, começou a cambalear. A estrada amarelada sob sol intenso ajudava a aquecer o ar que se respirava. Uma baba espumosa começou a sair de sua boca. Não havia mais nada adiante, a não ser uma sucessão de arbustos ressecados e cheios de espinhos, repetidos monotonamente até a próxima curva.

A força lhe faltou, a vista amarelou, seco o bicho tombou.

— Aaahhhg, aaaahhhg! — O homem se debatia buscando se levantar. Impossível, naquela situação, impossível. Uma dor enorme o tempo todo. Com a dor a necessidade de ficar parado. Cada movimento significava mais dor. Se não buscasse se soltar, acabaria morto ali. Tal e qual um indigente no meio do nada.

— Socorro, socorro! — O grito rouco e abafado quase não saía, quase inaudível. Sem ninguém para ouvir, sequer. Apoiou a cabeça no braço e procurava pensar. Um jeito, uma forma de se soltar.

Preocupado em sair dali, do peso do animal por sobre sua perna, nem se deu conta de que o cavalo não se mexia mais. Do contrário, bastaria um simples comando e, ao menos, ele tentaria se levantar. A despeito da dor que teria de suportar, poderia ficar livre. Não seria muito, mas, o resto é o resto.

Fechou os olhos, como quem adormece por um instante. Para poder pensar mais um pouco no que fazer. A dor não era gratuita. Era resultado de um menisco rompido e macerado lateralmente. Outros danos paralelos poderiam muito bem acompanhar, como ligamentos arrebentados. Se continuar como está, aquela perna poderá muito bem se perder. Enfim, abriu os olhos, fitou o dorso do animal inerte por cima da perna. Teve uma ideia típica dos desesperados. Que já sabem que o tempo está se esgotando.

Apoiou o pé esquerdo sobre a cela. Prendeu a respiração, contaria com um auxílio invisível. Uma intensa descarga de adrenalina. Para enganar, driblar os nervos e abafar a dor momentaneamente. É assim que surgem os esforços hercúleos.

Puxou a perna com força em um movimento lento sob dor brutal. Libertou a perna até um palmo abaixo do joelho. Para se soltar de uma vez, ainda faltava o pé. Gritava, chorava e gemia, tudo ao mesmo tempo. Só não podia desistir. Tornou a apoiar o pé esquerdo na cela empoeirada e tornou a forçar. Outra dor, outro grito, outro choro e gemido. A perna estava livre.

Anestesia Induzida por Estresse (AIE), é o nome científico dado e este processo rápido de defesa do organismo. Pode durar, de alguns segundos a até 30 minutos. De forma muito residual, pode alcançar cerca de 72 horas. Não se trata do fim da dor, mas é um alívio de inominável importância.

Virou-se e apoiou-se sobre a perna esquerda. Começou a se arrastar, com fome, sede e dor, começou a se arrastar. Na estrada de poeira amarela, quente e seca. De arbustos cheios de espinhos. A dor não o abandonava. Arrastou-se corajosamente por cerca de cem metros ou mais. O céu azul contrastava com todo o resto. Parecia não querer saber daquele martírio.

Já o sol, este brilharia muito ainda antes de se pôr. Além do céu azul, pôde ver aqueles que se importam e vivem daquele martírio. Uns dois ou três em suas silhuetas negras faziam círculos, cada vez mais próximos, cada vez mais curtos. Observadores e atentos, ainda circulavam. Buscavam suas indicações, os sinais da morte.

Lá embaixo na estrada, a visão já amarelando e as forças, próximas de desfalecer. Viu algo logo adiante, ou pensou ver a miragem que não existia. Não era miragem e existia. A silhueta negra, sinistra e agourenta, o urubu pousou.

Gritou e atirou pedregulhos que achou por ali. O bicho recuou uns quatro passos, parou e ficou assistindo. Experiência, paciência e costume daqueles que, por ofício de natureza, já conhecem os sinais da vulnerabilidade que antecedem a morte.

Exausto e com fortes dores, abaixou a cabeça sobre o braço esquerdo por um instante. O agourento retornou quatro passos e avançou mais quatro. Novo grito, vociferações e nova exaustão. O agourento avançou mais quatro passos. Abriu os olhos e o bicho estava logo na sua frente. Tentou segurá-lo pelo pescoço, mas escapou. Seus olhos o bicho quer seus olhos. O começo do fim.

Estava a um passo do desfalecimento de vez.

Um barulho provocou uma revoada. Já não era mais só uma daquelas silhuetas sinistras. Havia pelo menos uma dúzia delas. Já se reuniam em volta do moribundo, todos conhecedores dos limites da vida quando ela se esvai.

Atirando pedras, dois homens se aproximaram do velho. Apoiaram sua cabeça e lhe ofereceram um ou dois goles de uma pouca água. Não prestaram atenção para o monturo sobre a estrada.

— O que aconteceu, homem de Deus, você caiu?

Mais morto do que vivo o homem balbuciou:

— Apolônio, Apolônio morreu...

Assim é o sertanejo.

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