Por: Antonio Mata.
O desejo profundo e angustiante era doloroso. Desejo por algo tão comum, tão presente na vida. Nas noites, nos quartos fechados, nos cômodos vazios, nos lugares distantes, longe da balbúrdia urbana, nas choupanas e nos casebres.
Queria silêncio, nem que fosse a migalha de uns poucos minutos. Nem isso chegava, nem ao menos existia. Não ali para Armand.
Os gritos infernais das mulheres, o choro interminável das crianças e os impropérios contínuos dos homens ocupavam o tempo, o ar sujo e fétido, a inpenetrável escuridão negra e fantasmagórica, onde mãos tenazes, ao mesmo tempo que moribundas sempre espreitavam em busca de seu pescoço. Uma fixação, uma alucinação que não queria passar.
Desejo de perseguir e matar quem já estava morto. Uns o perseguiam por convicção, apoiado no mais cruel e doentio desejo de vingança. Outros, porque alguém mandou e outros ainda porque viram, não tinham o que fazer e foram auto recrutados. Passaram a perseguir também.
As condecorações por serviços prestados nas colônias não tinham como o ajudar. Sequer falavam da selvageria inegável por sobre aquela gente. Falavam da grandeza e da bravura conquistadas sobre a destruição de muitos. Era preciso sobrepujar para poder triunfar. Acreditou e defendeu tais ideais por muito tempo, até tudo se perder. Talvez, tempo até demais. Um aviso, um acidente, mostrava que estava na hora de acabar.
A queda de um avião sem deixar sobreviventes encerrou a vida terrestre do condecorado oficial colonial. Um ano depois, em 1960, a França concedia a independência a 14 colônias africanas. Depois de oito anos de guerra, a Argélia, em 1962, se tornou independente, encerrando 132 anos de colonialismo.
Empurrados por leis inexoráveis, em 2015, imigrantes ilegais vindos principalmente do Oriente Médio e da África invadem a Europa durante a chamada Crise migratória. Karma obtido em diferentes graus pelo Reino Unido; França; Bélgica; Portugal; Alemanha e Itália. Muitos eram apenas espíritos europeus desejosos de voltar para casa. A casa que já não os reconheceria mais.