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terra de espíritos

histórias, crônicas e contos

Borba

Por: Antonio Mata. 

O Almirante Moreira VII aportou, trazendo consigo os primeiros raios de sol. Conduzia mais de 200 pessoas a bordo, após 11 horas descendo o Amazonas e adentrando o rio Madeira. Não sem antes cumprir sua escala, em Nova Olinda do Norte.

De modo mais ou menos organizado, passageiros, bagagens, carga e tripulação estavam acomodados nos três pavimentos da embarcação. Na carga, acomodada no pavimento inferior, grande quantidade de cerveja e refrigerantes. Motivações dos homens.

Os passageiros deixam a embarcação, onde a tripulação cuidaria da retirada da carga, logo a seguir. Com menos de uma centena de ruas, em um raio de pouco mais de 1500 metros se chega a qualquer ponto da cidade.

Rever parentes, amigos, saber das novidades e levar outras tantas. A chegada é sempre um pequeno evento apreciável. No cais, o condutor de um triciclo, uma espécie de riquixá motorizado, recolhe sua bagagem. Ela acomoda-se no veículo, que parte em seguida.

Na capital, há muitos anos, não perdia a oportunidade de retornar às raízes e ao grupo familiar. Chegam à moradia comum e simples, onde a madeira, mais que abrigo e conforto, oferece memórias. Aquela coleção de reminiscências, imagens, sabores, vozes e sentimentos que não se quer perder.

Após rever os mais íntimos da casa, dirigiu-se à porta dos fundos, que dava acesso a um grande quintal. Fruteiras diversas, plantas e flores. Além da companhia festiva de Caramelo. O mais contente com a visita.

Observava o local por demais conhecido, lembrava de episódios passados. Encontros, festejos, eventos que marcaram as vidas simples nas margens do rio. Fechou os olhos e divagava entre retratos do tempo. Quando tornou a abrir, havia se transportado. Outro lugar, outro modo, outra coisa?

O quintal de lembranças havia desaparecido. Fruteiras e plantas já não se via mais. Em seu lugar, enorme construção recebia um número extenso de pessoas que não pôde contar.

O trabalho era contínuo. O hospital se abria ocupando o quintal e muito mais além nos arredores. Parecia açambarcar a cidade inteira. Como a mostrar que o lugar é bem mais do que aquilo que possa parecer.

Uma espécie de hospital central. Repleto de equipes de socorristas que atendiam a grande quantidade de enfermos. Oriundos de toda a região do Madeira e rios próximos, pensou. Ninguém parava para lhe dizer nada, mas, sabia. Sabia porque sentia. Estava dentro de sua mente.

Entre a surpresa e o quase desfalecimento, cai de joelhos e apenas chora. Não há maiores preocupações em querer saber por quê. Apenas estava lá.

Depois das alas iniciais, ocupadas pela gente simples da ribeira em seus corpos morenos, emergiu a seguir uma sequência de grandes enfermarias. Nelas, pacientes com os olhos claros, ainda que vidrados, parecendo nada enxergar. Os cabelos dourados como o trigal maduro visto ao longe. A pele alva, mais que um detalhe, uma lembrança, um conforto a quem teve de deixar um mundo distante.

De alguma forma, a visão, a disponibilidade, o movimento, o simples fato de existir, falavam por si só. Não havia perguntas nem dúvidas. A grande região, por tanto tempo utilizada como área de repouso espiritual para os torturados da Terra, se permitia enxergar. Ao menos uma parte limitada de suas instalações de apoio e socorro.

Então, era assim. A floresta de incontáveis segredos se deixava mostrar em suas energias e vibrações benéficas. Pronta a acolher desde os mais esquecidos aos mais aguerridos.

A convergência prosseguia. O grande momento, há tanto esperado por milênios, chegava e se fazia anunciar de diversas formas. Nas mentes, nas casas, nas igrejas e nos palácios. Nas oficinas e nos gabinetes. De tal modo que todos saibam, compreendam e se preparem.

Brasil, coração gentil para tantos povos, pátria escarnecida da mensagem que nunca passa. Abrigo, refúgio e repouso. Arauto e anunciação do que virá a ser.

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