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histórias, crônicas e contos

Carpathia

                                                            

                                                                                                              Imagem: Wikimedia Commons - Mark Gasoline

Por: Antonio Mata

Roquefort; gorgonzola; parmesão e provolone, todos, lado a lado enchiam de aromas o lugar. Palmilhava no escuro desde o início da madrugada, sob um risco enorme, até que enfim apareceu.

Não bastasse a grandeza do achado, pôde contar ainda com uma fateixa de luz. Uma fraca luz de lâmpada que, mais próximo, passou quase que a indicar o caminho.

Pôde enxergar as cores que corroboravam os aromas que já estava identificando. Comida era milho, sabugo e barra de sabão. Aquilo enfileirado ali bem acima, era outra coisa.

— Achei, achei! Quem procura acha! Eu achei, eu achei!

Com os olhos e os bigodes bem treinados por incontáveis missões na escuridão, vislumbrava encontrar a enorme cozinha do navio e com ela, o depósito de alimentos. Em que pese a oferta de queijos, buscava principalmente frutas, grãos e alimentos doces.

— Isso sim é que é viajar de primeira classe! Sem falar que a viagem mal começou. Comida, descanso, segurança e balançando pouco. Foi só saber farejar e encontrar a coisa certa.

Estava estonteante e em êxtase pelo sucesso de sua empreitada. Esgueirar-se silenciosamente, amparado em seu olfato seletivo e apurado, havia dado certo mais uma vez.

Fazia tempos que não se importava mais com a busca de alimento. O que almejava de verdade era comida gostosa, saborosa, se possível em quantidade. Assim bastava memorizar o caminho para então poder buscar mais.

O que um dia foi busca, agora era prazer. Tornou-se uma espécie de aventureiro, tamanha a sua satisfação em achar qualidade e sabor, fosse qual fosse a dificuldade.

Vaidoso e glutão, se regozijava de memorizar várias trilhas, para alcançar os mais variados paladares. Queria a satisfação de poder escolher. Apreciar os sabores, de preferência, com calma. Em pensar que quem fazia isso tudo era apenas um animal. Às vezes, lembrava mesmo era um homem.

— Deixa de ser besta que você não passa de um rato gordo Jacinto! Saia daí, antes que acabem te encontrando. Francamente, eu não sei como ainda não te imprensaram em uma porta. Não te acertaram uma paulada, ou não te deram um tiro. Já que para um confiado como você, ratoeiras, venenos e armadilhas não servem para nada.

O gordo abriu um sorriso de satisfação.

— Mary Ann, seja honesta e sincera comigo. Você morre de inveja de um gordo, inteligente, capaz, fugaz e cheio de sucesso como eu. Não é? Fala a verdade.

Gordo, presunçoso, vaidoso e comilão, que Mary Ann passou a observar com indisfarçável desprezo.

— Tá bom Mary. Eu respeito e admiro sua coragem e determinação. Mas, fala sério. Você tem inveja do meu sucesso não tem? Pode dizer, nós somos amigos. Sem falar que você mora no meu coração.

— Vá para o inferno, você e o seu sucesso de ladrão de comida.

Mary não estava aborrecida à toa. Com toda uma prole para cuidar, sabia existir muito deboche nas palavras do gordo. A despeito da situação de Mary, Jacinto era egoísta.

Só isso já era o suficiente para aumentar os esforços e sacrifícios de Mary para alimentar os seus oito filhotes. Uma família de pouco valor e desinteressante, com aquele monte de ratinhos pidões. Pelo menos aos olhos de Jacinto.

Quando Mary Ann conseguia alimentar a todos, encolhia-se em algum cano escuro. Em alguma reentrância nos andares inferiores do navio, ou amontoado de caixotes, longe dos demais e fora das vistas dos homens.

Quando então pensava nos dias passados. Se, de fato, estaria fazendo a coisa mais certa. Estava confusa junto de seus filhos, todos ainda muito pequenos.

No fundo achava que podia ter sido enganada desde o início e deixada sozinha. O navio, o mar, aquele monte de gente. Tudo parecia tão hostil e opressor.

 

Muitas bocas.

Nos idos de 1912, Ampfield era uma pequena localidade do interior da Inglaterra. Criada em 1894, com população pequena e alguma produção de grãos nas fazendas locais.

O lugar era mais famoso por sua paisagem rural e algumas construções antigas. Atraía moradores interessados no sossego da vida campestre, coisa que acontece até hoje. Contudo, outra situação tinha Ampfield como palco. Tudo normalmente fora dos olhos humanos. É que uma certa população de subsolo crescia em ritmo bem mais acelerado que na superfície. 

— Não está dando mais. — Dizia Margareth.

— Eu sei, são muitas bocas para alimentar. — Olhando para o tempo, Joseph só podia concordar.

— Muitos para comer e a comida cada vez menor e pior. Vamos acabar morrendo aqui. Os cereais diminuindo. Não há mais frutas em quantidade para nós. Estamos correndo atrás de migalhas.

— Somos muitos agora. Já estão brigando por comida. Logo estarão se matando e comendo uns aos outros. Até mesmo as crianças e os doentes. Já pude ver isso antes. Esse velho roedor aqui, já viu muita coisa.

— Não vou esperar que matem meus filhos.

— Muito simples, avise aos mais velhos para partir. Ou senão, partiremos todos. Não bastassem os problemas que já existem, Mary Ann já está prenhe daquele inútil e preguiçoso do Hilton.

Margareth agora também olhava para o tempo.

— Então, é melhor que partam logo, antes que outra cria apareça para passar fome. Mary Ann poderá não resistir. Esperta e cheia de vivacidade. Mas, tão pequenina e tão frágil.

— Melhor falar logo com eles. Não duvido que em breve, outros acabarão seguindo atrás.

— Será que ele vai cuidar de Mary?

— Melhor não pensar nisso.

 

 

A partida.

Início de março de 1912. Pouco antes do amanhecer, numa noite escura, Hilton e Mary Ann, discretamente adentram uma carroça que seguiria logo depois para Southampton.

Seguia com eles, Elias, outro retirante na busca de vida melhor na cidade. Antigo conhecido de Mary Ann, mas que não era merecedor de suas atenções.

Simples, acostumado a vida e ao trabalho rude do campo, não era capaz de despertar maiores interesses. Foi com pesar que partiu para a maior cidade portuária do litoral sul da Inglaterra.

Morosamente a carroça venceu os 11 km até Southampton. Duas horas após, já na cidade, era hora de descer e buscar abrigo. O que não foi difícil nos incontáveis buracos, bueiros e monturos, principalmente nas imediações do porto.

Descem e entram correndo para não serem vistos.

— Quem são vocês? O que querem aqui? Os caipiras estão vindo de onde? Trouxeram sua própria comida? Vou logo avisando que aqui tem ordem! E o primeiro aviso é que o lugar já está cheio.

— Está cheio, como assim? A cidade é muito grande. — Dizia Elias.

— A cidade toda está cheia de ratos Elias. É isso que ele está querendo dizer. — Afirmava Mary.

O rato gordo, se fazendo passar por autoridade, parecia destoar daquele discurso de saturação. Parecia muito bem nutrido e sadio. Bem diferente do rato magrelo e comprido que o acompanhava. Com ar cínico, acrescentava:

— De qualquer modo, vou considerar e abrir uma exceção para vocês. Afinal, são recém-chegados e precisam se acomodar. Vamos ver se podemos dar um jeito nisso. — Olhou para seu comparsa, dizendo:

— Humphrey, o que temos para eles comerem?

— Não tem nada chefe.

— O que tem para se acomodarem?

— Não tem nada chefe.

— Tem pelo menos água limpa?

— Nenhuma chefe.

Malicioso e se fazendo de importante, olhava para os três caipiras no canto da toca, com desdém.

— Veja só, meu senhor, não queremos incomodar. Um lugar pequeno para dormir já é o suficiente. — Explicava Mary.

— Um lugar para dormir, já é o suficiente. — Repetia o rato gordo.

Encarando a pequena Mary, sentenciou:

— E depois algo para comer, é claro. Sendo que não tem nada. Logo sendo assim, terão que trabalhar, ou dar o fora daqui. Não estão em nenhuma ratoeira nojenta do meio do mato. Aqui existem acomodações de qualidade que só a cidade de Southampton pode oferecer. Basta pagar, é lógico.

— Podemos trabalhar sim. Vamos pagar pela hospedagem. Não é Hilton, não é Elias?

— Claro Mary, vamos sim. — Dizia Elias.

— É..., precisa né. — Dizia Hilton.

— Sendo assim, vamos cuidar disso. A garota fica aí com Humphrey. Não se preocupem, pois ele é meu braço direito. Não é Humphrey?

— Claro que sim chefe. — De cara meio abobada, concordava o magricelo Humphrey.

— Vocês dois venham comigo.

Esgueirando-se pelos cantos e percorrendo buracos e vielas espalhados por todos os lados, se aproximaram dos grandes trapiches da área portuária.

— Procurem por comida. De preferência milho inteiro, na espiga. Para carregar é mais fácil. Não vou perder o meu tempo procurando coisa melhor. Não com vocês do meu lado.

Finalmente encontraram um depósito de milho em espigas, que Elias e Hilton juntaram algumas espigas para carregar nas costas, por todo o caminho de volta. Lá chegando, procedeu-se a separação e divisão do milho.

— Na cidade utilizamos o critério dos terços. Dois terços para os especialistas e um terço para os novatos; os desocupados; os caipiras e os que nada sabem.

— Mas nós somos três e carregamos tudo até aqui. — Reclamava o exausto Elias.

— E nós somos dois especialistas. Conhecedores desse labirinto de buracos e vielas, sabedores de onde encontrar mais e melhor, logo, sendo assim, por uma questão de justiça, ficamos com a parte dos especialistas.

— É isso mesmo chefe. Ficamos com a parte dos especialistas. Conhecemos tudo, sabemos de tudo e vocês não sabem de nada.

Estabelecido o critério, puderam então comer, descansar e dormir.

Menos mal, já acomodados, superou-se a fome e o cansaço com a promessa de uma boa noite de sono. Só não foi bem assim que aconteceu. Pelo menos para Mary.

 

Chegadas e partidas.

O trabalho de parto se deu logo no início da madrugada.

— Hilton, Hilton. Vai nascer..., Hilton, acorda.

— Humm...

— Hilton acorda!

— Humm...

Quem acordou de olhos arregalados foi Elias.

— Mary Ann, o que foi? Aconteceu alguma coisa?

— Estão nascendo Elias.

Elias se levanta rápido e vai fazer o que Hilton deveria estar fazendo. Ajudar Mary no nascimento de seus filhotes. Foi assim até a chegada do oitavo ratinho.

Chegou o mês de abril. Na segunda semana, a prole de Mary e Hilton completariam seu primeiro mês de vida. A vida sob as ordens de Jacinto não era nada daquilo que pudessem ter um dia sonhado, em se tratando de viver na cidade.

Elias então, procura o casal.

— Preciso ir. Aqui é tudo muito difícil. Não sinto que estejamos conseguindo avançar. Estive conversando com alguns caras no porto. Me disseram que interessante adentrar os navios. Não é bem o que eu gostaria, mas não posso escolher e não posso mais ficar aqui. Vou conseguir outro lugar para trabalhar.

Mary sabia que estaria indo embora um amigo importante e fiel. Também sabia que ele tinha razão. Jacinto era um escroque, um trapaceiro, e aquilo já estava indo longe demais.

Hilton, se de um lado, foi indiferente à partida de Elias, de outro só sabia lamentar.

— E agora, como vai ser? Você Mary, tendo de cuidar dos filhotes. O magrelo não faz nada e Jacinto menos ainda. Então terei de fazer tudo sozinho?

— Talvez sirva para você compreender o valor de um amigo Hilton. — Balbuciava Mary Ann.

Jacinto, na sua toca, é quem sabia de tudo. Logo, logo chegou aos seus ouvidos que Elias estava disposto a partir. Iria para o porto, atrás de trabalho em um navio.

O gordo sentiu a oportunidade de prosseguir com mais uma articulação. Vantajosa para si mesmo, é claro.

— Elias, se sua preocupação é trabalhar no promissor ramo da navegação, poder viajar e ampliar os horizontes. Acho que posso ajudar. Pelo menos orientar e o resto é contigo.

— O que é que você quer?

— Não sou eu que quero, Elias. É você que precisa, Elias.

— Do que se trata?

— Se trata de indicação para o trabalho, Elias. Alguém que o recomende e fale em seu favor, Elias. Alguém que conheça os caminhos tortuosos, difíceis e perigosos que levam aos navios. Eu digo aos melhores, Elias. Se é que você me entende.

— O que terei de fazer? Como vou lhe pagar?

— Com uma coisa que vale mais que dinheiro.

— O que é isso? Comida? Queijo, frutas?

— Não é não Elias. Você irá me retribuir o favor com informação.

— Não entendi. Que tipo de informação.

— Informações úteis. Informações qualificadas. Daquelas que se precisa saber o que se está procurando.

— Continuo não entendendo.

— Muito fácil. Você irá registrar em um caderno tudo aquilo em sua rota que possa ser importante de se conhecer. Ao retornar você me apresenta o seu relatório. A cada viagem, essas anotações irão aumentando na busca daquilo que seja realmente de valor. Isto é informação qualificada e preciosa, Elias. Só não posso mandar qualquer um. O idiota do Humphrey, está fora de cogitação. É burro demais.

Sabia Elias que Jacinto era uma cobra destilando veneno. Todavia, queria sair dali e recolher informações durante a viagem, talvez fosse realmente algo útil de se fazer.

— Está bem, me mostre o navio.

Horas depois, no início da noite, estavam no cais do porto onde um navio ancorado apontado por Jacinto, recebia alguns trabalhadores. Um sujeito de aspecto sinistro os recebeu.

Mandou que Elias subisse a bordo enquanto ficava conversando com Jacinto, junto ao navio.

— Vocês se ajeitem nesta sala, até que lhes indiquem suas funções. Foi a ordem que receberam.

Enquanto aguardavam por mais algumas horas no recinto sujo e escuro, notaram que a porta estava trancada por fora, e que o navio estava desatracando e se pondo ao mar.

Pela manhã, já em mar aberto, Elias pôde perceber que não havia nada para anotar em sua caderneta, a não ser a imensidão das águas adiante. Queria respostas.

— O que está acontecendo? Para onde estamos indo? O que vão fazer lá? E nós, como ficamos?

— Cale a boca seu rato. Quando chegar você irá saber.

Não foi a primeira, nem seria esta a última vez em que trabalhadores foram recrutados para tomarem rumo ignorado e executarem serviços em que desconheciam as circunstâncias e a natureza do trabalho.

Era para aquilo que chamavam, normalmente como o exercício de trabalho análogo a escravidão. Jacinto era um agenciador de trabalhadores braçais. Na realidade, para serem explorados trabalhando sob condições vis. O gordo estava sendo pago para isto. Captar trabalhadores clandestinos e baratos.

Não se teve mais notícias de Elias.

 

Terra Nova.

Na toca de Jacinto, Mary cuidava de seus filhotes e comentava com Hilton.

— Não gostei nem um pouco de ver Elias sendo orientado por Jacinto. Deveria ter saído sozinho. Esse gordo não é digno de confiança. Agora não sabemos para onde Elias foi parar.

— Elias sabe se cuidar, não se preocupe. Agora será um navegante. Vai conhecer o mundo e ganhar dinheiro. Vai ser bom para ele, você vai ver.

— Não sei não, não confio nesse gordo e acho que você também não deveria confiar.

Entrementes, os dias avançavam e não tardou a chegar aos ouvidos de todo mundo. O maior navio do mundo, o maior jamais construído. Um navio ostentando a bandeira britânica.

O gigante dos mares, recém construído, havia chegado e estava atracado no porto de Southampton, onde estava recebendo grande quantidade de carga e passageiros.

Não era somente isso. Existia na época um nome quase mágico, de uma terra nova e em crescimento, que enchia os olhos de toda gente, a América. Como se não bastasse, o grande transatlântico estava com partida prevista para o dia 10 de abril, rumo ao porto de Nova York, nos Estados Unidos.

Na cidade e arredores, não se falava de outra coisa. Nos pubs, nas casas elegantes, nas lojas, nas repartições públicas, o assunto era a viagem inaugural do grandioso e belo Titanic.

Jacinto pensou, repensou e pensou de novo.

— Uma terra nova, um país novo em crescimento. Vamos aos fatos e aos negócios Humphrey. Isto é do nosso inteiro interesse.

— É verdade chefe, ainda bem que o senhor pensa em tudo!

— Penso sim, é claro. Alguém aqui tem que pensar. Se existem novas oportunidades, existem boas chances de sucesso. Principalmente para alguém inteligente. Como eu mesmo.

— Genial chefe, genial! Eu posso ir também?

— É claro que você pode. O que seria de mim sem um fiel escudeiro, que come pouco, fala pouco, cumpre suas ordens e não custa quase nada?

— Chefe e Hilton, Mary e os filhotes. O que vamos fazer com eles?

— Deixe isso comigo. Vão todos para a América conosco. Afinal Hilton ainda pode ser útil. O ideal é que deixasse Mary Ann para trás com aquela penca de ratinhos. Eu mesmo vou cuidar disso.

— Sempre pensando em tudo. Não é chefe? É por isso que gosto de trabalhar com o senhor.

— Eu acredito em você.

Humphrey, que era meio tonto, abriu um sorriso de satisfação pelo apreço de seu chefe. Evidente que Jacinto explorava o tolo Humphrey, que por vez não entendia o que se passava.

Na realidade era e seria sempre o primeiro escravo. Uma coisa era certa, o seu escudeiro era um rato útil e não seria deixado para trás. Se Jacinto desse um jeito de entrar naquele navio, Humphrey estaria com ele. Apenas um, de incontáveis casos de fidelidade mal dirigida e por isso mesmo explorada.

Era evidente demais que Jacinto estava querendo capturar a mente do preguiçoso Hilton, só para habilmente transformá-lo em um segundo Humphrey. Mundo novo, terra nova e a necessidade de mais idiotas úteis.

Madrugada do dia 10 de abril, porto de Southhampton. Se os homens chegam cedo para preparar o embarque dos passageiros, sendo que a maior parte da carga já estava acondicionada, anteriormente, os roedores precisam se adiantar e cuidar do seu próprio embarque no início da madrugada.

O relógio ainda não indicava duas horas e Jacinto; Humphrey; Hilton; Mary Ann e seus filhotes, encobertos nas sombras da noite, já estavam prontos para embarcar.

Escalaram as grossas correntes de atracagem do transatlântico, com Mary Ann conduzindo seus ratinhos em uma verdadeira aventura. Em que pese o desafio, assustador para Mary, seus filhos se sentiam como escaladores de perigosa montanha. Só que faziam isso sorrindo.

— Legal mamãe, a gente vai subir a montanha bem rápido!

— Eu só quero que não caia ninguém e que cheguem todos vivos, só isso. Meu Deus do céu!

— Calem a boca vocês todos! Navios têm vigilantes! — Bradava Jacinto, por entre os dentes.

— É isso mesmo seus idiotas! Navios têm vigilantes! — Repetia Humphrey.

— Seu energúmeno! Cale a sua boca Humphrey!

— Desculpe chefe. Tá bom chefe.

Enfim embarcaram no grande navio. Jacinto não era só gordo, era também velho e experiente. Seguiu na frente, atento às armadilhas, comida com veneno e toda sorte de mecanismos que os homens usavam para matar ou estraçalhar ratos intrusos. O malandro Jacinto conhecia todos eles.

Providencial era mesmo ter alguém como Jacinto, por perto nestas horas. Ardiloso, mas observador, pertencia a uma geração onde a maioria já havia ficado pelo caminho, quando este cruzou com o caminho, quase sempre nefasto dos homens.

Homens e ratos, resilientes e quase inseparáveis. Ainda assim inimigos mortais. Um é o tormento do outro. Isso tudo fazia de Jacinto, um sobrevivente inteligente e astuto, que jamais teria o reconhecimento do outro lado. Já que todos detestavam ratos. Estes, quanto mais capazes, mais detestáveis.

Mau-caráter, egoísta e usurpador, ao final das contas, era detestado pelos dois lados. Uma inteligência desperdiçada, já que posta a serviço do crime, para uns. Uma inteligência a serviço da sobrevivência, para ele mesmo. Mas, afinal estamos falando de um homem ou de um rato?

— Cadê o Hilton? — Perguntava Mary Ann.

— Ora, ele não estava logo atrás de você? — Era Humphrey perguntando.

— Sim estava.

Mary voltou correndo por entre as armadilhas até encontrar a passagem das correntes de atracagem.

— Aonde pensa que vai, você é louca?

— Não é não Humphrey. O idiota do Hilton ficou para trás de propósito. E ele tinha um acordo comigo! Aquele inútil me enrolou! Ninguém faz Jacinto de besta!

Mary olhava pela abertura das correntes, a tempo de ver Hilton ainda no cais.

— Hilton, Hilton, suba logo! Aonde você vai?

— Eu sinto muito Mary. Eu vou embora, faça boa viagem.

— Hilton, seu cachorro fantasiado de rato, volte aqui! Você tem um acordo comigo! Você agora é um rato morto! — Esbravejava Jacinto, espumando pela boca, como um rato envenenado.

— Hilton, faça isso, vá embora. Seu covarde, eu devia saber. — A família da jovem Mary Ann havia implodido de uma vez. Sozinha, com oito filhos, na companhia de um rato vigarista e a caminho de uma terra desconhecida.

Esgueirando-se pelos cantos escuros do cais, Hilton desapareceu.

Todos voltaram para o subsolo e foram se acomodar. Logo iria amanhecer e o cais estaria cheio de gente embarcando, banda tocando, gente festejando e Mary Ann chorando até a cabeça doer e não era de alegria. Não era não.

Às 12:15h, do dia 10 de abril de 1912 (de acordo com o relatório do senado dos Estados Unidos, posteriormente a tragédia), o Titanic zarpou do porto de Southampton, com 2223 passageiros e tripulantes a bordo. Além de um número desconhecido de clandestinos, já que ratos não entram na fila, não fazem triagem e nem pagam passagem. Contudo, eram integrantes da quarta classe. Aquela da qual não se escreve nem faz história.

O gordo tinha satisfação em procurar comida, sempre separando a melhor parte para si mesmo, enquanto Humphrey apoiado por Mary, já que Hilton havia ficado, carregavam o resto. Depois era só dividir pelo critério do terço, é claro. Humphrey era o responsável pela guarda do estoque. Principalmente em espantar os filhotes sempre famintos de Mary Ann.

 

Inesperado.

Os clandestinos passavam um tanto quanto despercebidos, pois estavam nos andares inferiores do navio. Nas áreas de serviço mais pesado, máquinas, oficinas e estoques.

O lado bom para os roedores, principalmente quando passaram a navegar mais ao norte, era a proximidade com o calor. Item este muito bem vindo, por se acomodarem bem próximos a uma das 29 gigantescas caldeiras do Titanic.

Era assim, ainda que o vai e vem dos 150 foguistas que mantinham os motores funcionando, fosse perigoso por si só e o barulho da operação e máquinas funcionando fosse horrível. As reentrâncias, pequeninos espaços e passagens de ar, diminuíam a chance e o risco de serem encontrados.

Lá no alto, a viagem seguia ainda empurrada pela novidade, pelo luxo, sensação de segurança, ótimos serviços e restaurantes, além de uma inegável satisfação de estarem participando de algo reconhecidamente grande e incomum.

Menos para Mary Ann e seus filhotes, além de Humphrey, que não era lá muito famoso por sua coragem.

— Vocês parem com isso. Esse navio é um colosso, só um maremoto gigantesco, uma tempestade do século para pô-lo a pique. Relaxem e apreciem a viagem.

Assim ironizava Jacinto. Sem ele próprio fazer maior ideia do que estava dizendo. Ali não havia conhecimento de navegação ou qualquer coisa parecida. Só verborragia de um trapaceiro e ordinário, acostumado a tapear os demais. Seu talento estava com as coisas da comida.

Não obstante, o colosso representava a história das conquistas dos homens, em franco andamento. O navio avançava, viajando em velocidade acima dos 20 nós. A despeito dos sucessivos avisos de formações de icebergs em sua rota, o colosso prosseguia, alheio ao perigo, na sua condição de navio impossível de afundar.

Ainda no dia 10, o navio passa por Cherbourg, na França e atraca em Queenstown, na Irlanda. Às 13:30h, do dia 11 de abril deixa Queenstown e levanta âncora pela última, tomando a rota mais ao norte, rumo ao porto de Nova York, onde jamais chegaria.

Vida morosa, com os dias se arrastando um após o outro. Lá fora, águas muito frias e um vento cortante, enquanto rumavam para as águas congelantes das altas latitudes.

Chega o dia 14 de abril.

Para quem viaja ao lado de uma caldeira em ebulição, o barulho constante da água fervendo acaba se tornando cansativo, desgastante e monótono. Manter filhotes tranquilos sob tais condições não é nem um pouco fácil.

Aquilo não foi descaso, foi sim inevitável e mera consequência. Com os dias avançando, Mary Ann começa a ser vencida pelo cansaço e a adormecer aqui e ali. Fosse de dia, fosse à noite.

— Mamãe, a gente pode sair para andar um pouco?

— Humm..., não, não pode não. — Responde Mary, de cabeça baixa, sentada e encostada na parede metálica do navio.

— Só um pouquinho, até ali na frente e a gente já volta.

— Humm...

— Tá bom? A gente volta logo tá?

— Humm...

Os ratinhos olham uns para os outros.

— Entendeu o que ela disse? — Pergunta um.

— Será que ela deixou? — Pergunta outro.

— O que foi que ela falou? — Indaga um terceiro.

— Falou que podemos ir, só um pouco, até ali na frente e precisa voltar logo. Senão vai todo mundo ficar de castigo.

— Então, temos que ir logo. Vamos depressa!

Enquanto mamãe dormia, oito ratinhos cansados de ficar parados, saíram às pressas para conhecer além. Um pouco mais além, um pouco mais e além.

Corriam pelos cantos em um navio com 899 tripulantes. À frente, corredores e escadarias escuras a percorrer.

— Sobe aí, sobe logo.

— Mamãe não falou para subir escadas.

— É verdade, não falou não.

— Mas também não falou para sair de perto dela coisa nenhuma.

— Mas falou para voltar logo. Então, a gente sobe e depois volta logo.

Agora, aquilo fazia todo o sentido. Mesmo assim, ficaram como que paralisados, olhando uns para os outros, como quem aguarda alguma coisa acontecer.

Um ratinho, o mais traquina, agarrou-se na borda do degrau e começou a subir. Os demais, como que por encanto e em fila indiana, começaram a fazer o mesmo. “Follow the leader”.

Chegaram em outro corredor escuro. Percorreram rapidamente, até outra escadaria que chegou até outro corredor também escuro. Até que finalmente, após mais um lance de escadas, avistaram luz. Assim, às claras, só podia ser o caminho correto. Certamente com novidades à vista.

O relógio marcava 23:30h. Mary Ann adormecera e não viu seus filhotes se afastarem em busca do que fazer e de descobertas. Jacinto e Humphrey, dormiam calmamente como de costume. Vida que segue no gigante dos mares. Muita gente já estava dormindo, até por conta do frio intenso.

A luta dos foguistas para abastecer o devorador de carvão prosseguia, de modo a sustentar os 22 nós de velocidade, sem nenhuma orientação ou ordem adicional.

Foi súbito, estrondoso e violento.

Por alguma razão, às 23:40h, um som desconhecido invadiu todos os dez andares do navio, sem que as pessoas soubessem o que estava acontecendo. Parecia que algo descomunal rasgava o navio inafundável, como se fosse de papel.

O som estranho vinha de estibordo, o lado direito da embarcação. Demorou apenas 7 segundos, porém, rasgando chapas de aço. O suficiente para mudar o rumo das coisas, das vidas e entrar pesarosamente para as páginas da história.

Os filhotes de Mary, diante do estrondo brutal, estancaram sua busca de aventuras. Ficaram aguardando alguns segundos e então resolveram voltar rapidamente.

Descendo as escadarias começaram a ouvir um barulho que não ouviram antes. Na medida que o som aumentava, lentamente todos mudaram de ideia.

— Não vou descer mais, é melhor voltar, pelo menos até esse barulho passar. Vamos subir e esperar a mamãe.

Mais abaixo, Jacinto, Humphrey e Mary Ann acordaram repentinamente, por conta do estrondo. Tão logo recobraram-se do sono, instintivamente se puseram em movimento. A primeira reação era querer subir.

— Meus filhos! Onde estão meus filhos!

— Corra sua doida, corra agora e procure depois! Já devem ter saído daqui a essa hora!

— É isso mesmo, corra sua doida!

— Cale sua boca, Humphrey!

Como sempre, o gordo falava sem saber. Apesar disso, Mary sem opção e sem poder pensar direito, correu na direção das escadarias, junto aos demais.

Avançaram na direção das escadarias a tempo de ouvir a avalanche se aproximando, só que sem neve. O aguaceiro congelante e ensurdecedor estava muito próximo. Saltavam loucamente os degraus na escuridão, buscando subir e sair dali o mais rápido que pudessem.

Avistaram um andar iluminado e prosseguiram correndo pela escadaria. Até dar de frente com os filhotes.

— Mamãe, você veio nos salvar!

— Corram, subam depressa! Tem muita água entrando no navio!

A correria prosseguiu, com Jacinto e Humphrey ganhando a dianteira e avançando, é claro. Mesmo sabendo que Mary e os filhotes estavam sendo deixados para trás.

Chegaram ao nível do deck, onde as pessoas andavam de um lado para o outro, em busca de saber o que se passava. Se enfileiraram rente à parede por debaixo de um banco.

Em 15 de abril de 1912, às 00:20h, o Titanic começa a enviar sinais de SOS, em código Morse, a qualquer embarcação próxima que pudesse ajudar.

Enquanto isso, os clandestinos, debaixo do banco, ignoravam o que se passava. Não é que estivessem propriamente escondidos. Ante o nervosismo e dúvida reinantes, haviam se tornado praticamente sem importância. Na realidade, pareciam invisíveis. E assim, amedrontados e confusos, permaneceriam por quase uma hora daquele dia fatídico.

Às 00:40h, começam a ouvir os gritos dos oficiais da tripulação do Titanic. O comandante havia ordenado que abandonassem o navio. Primeiro as mulheres e crianças.

Os escaleres começam a ser preparados para receber os passageiros.

— Primeiro mulheres e crianças! Primeiro mulheres e crianças! — Gritava o oficial à frente da multidão.

Jacinto, com os olhos esbugalhados, se dava conta da dura realidade que se passava.

— Estamos afundando! Estamos afundando! Vamos sair daqui rápido, rápido!

— Ei chefe, primeiro mulheres e crianças.

— Cala a boca Humphrey! Eu não quero morrer! Eu não quero morrer!

O tumulto se estabelece próximo aos escaleres e ninguém atende mais ninguém. Um dos oficiais saca de um revólver.

É Humphrey quem tem uma ideia.

— Mary, quando eu disser já, você corre na frente, o mais rápido que puder com os seus filhotes. Chefe, você segue atrás comigo, correndo rápido!

Sem ideia melhor todos concordaram. Mesmo sob o risco de serem esmagados pelos pés humanos na tentativa.

— Um, dois, três. Agora Mary Ann, corre com os filhotes, agora Mary Ann! Chefe, agora, corre agora!

No meio da confusão, um punhado de ratos deixa a sua invisibilidade e procuram correr e saltar para dentro do escaler. Na corrida, Jacinto o gordo, tropeça e cai. O oficial os avista e faz menção de atirar para afugentá-los dali. Um escaler cheio de ratos assustados, famintos e transmissores de doenças não seria nada desejável de se ter em um bote salva-vidas.

Mary empurrava para dentro os últimos dois filhotes. Enquanto o oficial aponta a arma para Mary e seus filhos. Jacinto os vê em seu caminho. Se correr na direção de Mary, quando o oficial começar a atirar, todos inclusive ele mesmo, serão alvos fáceis.

Se levanta e se interpõe, ficando frente a frente com o oficial. Ouvem-se três disparos, com Jacinto correndo de um lado para o outro para dar tempo de Mary subir.

O terceiro balaço o atinge no meio do peito. Jacinto é varado de tal forma que perde um terço de seu tronco. Seus pedaços arrebentados pelo balaço se espalham pelo chão.

Os registros falam que o oficial tentava manter a ordem no local. Mas ninguém prestou atenção no piso manchado de sangue, ou quem viu, pensou que era sangue humano e tratou de obedecer ao oficial que cuidava do embarque.

Baixam o bote ao mar.

Humphrey, Mary e os filhotes se amontoaram por debaixo de um dos bancos, se tornando invisíveis novamente. Entre choros e palavras de lamento de mulheres e crianças, o escaler se afastava do Titanic.

Os clandestinos, tremendo e amontoados, já não viam mais nada. Só esperavam que aquela perturbação toda, acabasse o mais rápido possível. Humphrey parecia alucinado.

— O chefe, o chefe...

Já não havia mais o que fazer. O chefe havia dado a sua última cartada, de uma forma incomum. Foi uma cartada decente, heroica e mortal. A melhor de todas, poderiam dizer uns. Ou talvez a pior. A cartada de um idiota, diriam outros.

Não obstante, ele o fez. E por causa disso, Mary Ann e um punhado de ratinhos estavam vivos e dentro de um escaler. O único lugar seguro naquele momento.

Naquela área do Atlântico Norte, o RMS Carpathia, um navio de passageiros vindo de Nova York, de regresso a Europa, era o mais próximo do RMS Titanic. Recebera pelo telégrafo o pedido de socorro do colosso, rasgado de morte na sua lateral, e que afundava rapidamente.

Desviando de diversos icebergs em sua rota de socorro, pois viu-se em um mar de gelo, somente conseguiria chegar no local do naufrágio às 03:30h. O inafundável Titanic, foi a pique às 02:20h. Isto, duas horas e quarenta minutos, depois de colidir.

O Titanic avançava com velocidade próxima à velocidade máxima do navio. Por uma hora e dez minutos, mais de mil pessoas ficaram dentro d’água, sem ter onde se agarrar. Com o naufrágio, centenas de pessoas que não tiveram como se afastar, foram sugados para o fundo do mar.

Mesmo aqueles que, tentando escapar, se jogaram no mar providos de coletes, morreram por terem sofrido um ataque cardíaco, ou mesmo hipotermia, em poucos minutos. Isto devido a temperatura negativa da água, em -2° C.

Era quase uma ironia. A tragédia parecia se acercar da vida do inafundável. Tudo junto, em um ponto onde qualquer naufrágio seria difícil e mortal, por si só.

 

À deriva

Já era 04:45h. Logo iria amanhecer.

— Mamãe, está muito frio aqui. Vai demorar muito?

Mary Ann, atônita e esgotada pelos últimos acontecimentos daquele dia fatídico, ainda tinha de acalmar os seus rebentos, à deriva dentro do escaler.

— Eu ainda não sei. Vamos permanecer calmos e em nossos lugares. Não façam barulho de jeito nenhum. Acho que não sabem que estamos aqui. Se souberem, vão nos matar.

— Sabe de alguma coisa Humphrey? — Perguntava Mary Ann.

— Não faço nenhuma ideia. Quem sabia de tudo era o chefe. Eu só acompanhava tudo.

— Será que existe alguém procurando por nós? Aqui não sei nem se tem comida. Mesmo que houvesse não iriam nos dar nada.

— Nunca ouvi falar em nada disso Mary. Não sei se procuram alguém quando um navio afunda. Eu não procuraria. Só serve para ter mais gente para comer. Tenho certeza de que o chefe pensaria a mesma coisa.

— Sem dúvida Humphrey, ainda mais sabendo de como era egoísta. Em pensar que foi capaz de nos salvar. Acho que deve acontecer alguma coisa.

A coisa mais certa, o socorro mais urgente e mais próximo, estava por chegar. Começaram a ouvir sons de disparos e luzes aqui e ali. O escaler encheu-se de esperança. Alguém os procurava.

Mary, se aproveitava do fato de todos estarem olhando para cima em busca dos sinais pirotécnicos, e fazia o mesmo, buscando alguma informação. Até que deram novo disparo, este mais próximo. As pessoas começaram a gritar em resposta.

O escaler de Mary, Humphrey e dos oito filhotes, e que também estava superlotado, foi o último a ser resgatado por volta das 08:30h. Estavam todos exaustos de ficarem agarrados por debaixo de um dos bancos. Em absoluto silêncio e com água congelante dentro do bote, logo abaixo.

 

Carpathia

Toda vez que um bote chegava e era içado, olhos atentos vasculhavam todo o seu interior. Isto quando não entrava para refusar pelos cantos e coisas deixadas lá dentro, buscando encontrar alguém deixado para trás, só por precaução.

Decidido e corajoso, se arriscava a ver o bote ser devolvido às águas com ele dentro realizando seu trabalho, na busca dos seus iguais. A regra era não encontrar coisa alguma. Só água e objetos por ali abandonados.

Sabia se tratar do salvamento de sobreviventes de um naufrágio. Na realidade, um certo Titanic, do qual nunca ouvira falar. Percebia a agitação dos tripulantes e passageiros, e logo a seguir a chegada dos primeiros botes que foram resgatados. Assistiu aos mais fracos subirem a bordo amarrados em cordas e crianças içadas em sacos do correio.

Então, o bote de número 12 aproximou-se e as equipes de socorro do Carpathia, desceram para prestar auxílio e embarcar os sobreviventes. Também desceu se agarrando na escada de cordas do navio. Após recolherem o último sobrevivente, entrou no bote. Olhava tudo rápido, mas com atenção.

Ao se aproximar do último banco, prestes a retornar ao navio. Ouviu algo, como que arranhando a madeira do banco. Se aproximou e pôde ver Humphrey, Mary e os filhotes, todos agarrados por debaixo do banco. Ainda tinham receio de serem encontrados e jogados ao mar. Preferiram ficar onde estavam.

— Mary Ann, Mary Ann, sou eu, Elias.

O rosto de Mary se encheu de surpresa e alegria. Era a melhor notícia que recebia desde de que havia deixado os campos, da agora longínqua Ampfield.

— Elias, Elias, você está vivo! Está vivo!

Até Humphrey, pouco afeito a demonstrar alegrias, festejou o surgimento de Elias. Por vez, Elias tranquilizava a todos.

— Tenham calma, tenham calma. Façam silêncio, não podem saber que estão aqui. Estão erguendo os botes. Vamos aguardar aqui mesmo. É mais seguro.

De fato, o bote 12 foi içado a bordo do Carpathia. Por volta das 09h deram por encerradas as buscas e o navio, por ordem de seu comandante, sem condições de oferecer cuidados médicos a tantas pessoas resgatadas, retornou para Nova York.

Com a ajuda de Elias, Mary e os demais foram retirados do bote e conduzidos a acomodações onde puderam descansar e receber alimento. Finalmente estavam salvos.

Mais tarde, mais descansados e tranquilos todos, novas conversas para por as histórias em dia. Era a vez de Mary Ann.

— Pensávamos que você tinha ido embora, para não mais voltar.

— E de fato, tudo deu errado no começo. O apoio que Jacinto dizia prestar era falso. Na realidade era pago para entregar trabalhadores que acabavam aprisionados no navio e levados para destino ignorado. — Elias prosseguiu.

— Estava preso junto aos demais quando precisaram de uns quatro de nós para fazer algum serviço na proa do navio. Estávamos caminhando, quando visualizei terra por entre o nevoeiro. Não pensei duas vezes, me atirei no mar e nadei como um desesperado, até conseguir chegar em uma praia. De lá com a ajuda de alguns amigos, entrei em um navio e depois em outro, até encontrar o Carpathia. — Após uma pausa, prosseguiu.

— Fiquei no barco e estávamos cruzando o oceano de volta a Europa. Foi quando surgiu a notícia do naufrágio. O comandante foi muito corajoso navegando através de um mar de gelo e entre dezenas de icebergs. Quanto a vocês, não fazia a menor ideia de que estariam debaixo daquele banco. Apenas me pus a procurar.

— Você nos salvou Elias. Sabe para onde estamos indo agora?

— Pelo que dizem, o comandante resolveu retornar para Nova York. Lá encontrarão abrigo para você e os filhotes. Para você também, Humphrey.

— Muito estranho o comportamento de Jacinto. Te enganou em troca de vantagens, e terminou seus dias baleado e morto. Se estamos aqui Elias, foi graças a ele. Quase nos pegaram tentando subir no bote. Foi uma confusão e todos estavam muito nervosos.

— Parece ser dessa forma. Ninguém é de todo mal. Apenas dedica seus esforços à causa errada, Mary. Enfim vou acompanhá-los até Nova York e lá vocês decidem o que farão de suas vidas.

Em 18 de abril, três dias após o naufrágio, o Carpathia aportava em Nova York. Humphrey resolveu encontrar seus próprios contatos com os malandros da cidade. Já Mary Ann e seus oito filhotes, foram vistos na companhia de Elias deixando a cidade de Nova York, rumo ao interior. Pelo visto, havia desistido da vida de marinheiro.

Hilton, em Southampton, lá pelo final de abril, foi visto também. Embarcava em um navio, a mando de um agenciador sinistro, sem saber para onde iria e nem o que iria fazer. Tomou destino ignorado e nunca mais se teve notícias dele.

Então foi assim que os ratos da Inglaterra se espalharam pelo nordeste dos Estados Unidos e mais além. Mary ainda teve outra penca de ratinhos enquanto rumavam para o oeste. Foram fazer a América. Não era assim que diziam?

 

                                               FIM

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