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terra de espíritos

histórias, crônicas e contos

Casos da Pandemia

Por: Antonio Mata.

Aquela chuva da manhã, herança da madrugada, finalmente parou. Isso em uma sexta-feira. A meteorologia, então, anunciava um fim de semana espetacular. Muito sol, Alíseos felizes e o céu de um azul irretocável. Tudo pronto, tudo dentro do carro, todos a bordo. Hora de partir.

Só um problema.

De boca aberta, olhar espantado, quase chorando. Virava a cabeça e encarava um a um, como quem pergunta: “Aonde vocês vão? E eu, não vou não? Ninguém pegou a minha guia ainda e nem me chamou.”

Berg, um cão de quase seis anos. Gentil, alegre e perturbadora provação dos humanos da casa. Nascido durante a crise do Covid. Nasceu mais exatamente em abril de 2020, no dia 12.

Os governantes do mundo, em seus respectivos países, diligentemente, já haviam fechado as fronteiras, portos, aeroportos e estradas, desde o mês anterior.

Um domingo de Páscoa, dia festivo, a Ressurreição. Berg, um Chow-chow, uma bolinha de pelos em castanho-claro. As três crianças e mamãe se derreteram. Bom, papai, mais ou menos. Era presente de um amigo de André e ele, certamente, aceitou.

Nasceu assim em um dia singular. Um precioso presente para todo o mundo cristão. Mas, tinha a história dos ovos coloridos. Que no Brasil, um povo criativo por excelência, foi transformado em chocolate. Pequenos e grandes ovos de chocolate. Uma jogada dos mestres do marketing. Da ressurreição, essa daí quase não se fala. É um povo diferente.

Mas, enfim, Berg nasceu e entre brincadeiras, pés de mesa, sofá, camas e cadeiras, todos pacientemente roídos, Berg cresceu. André, vendo que aquilo não daria futuro, era troncho. Todo torto de vontade de dar sumiço no Berg. Mas, ninguém deixava. Era sempre quatro contra um.

O Chow-chow, assim como todo filhote, adorava brincar. Isso não é novidade para ninguém. Mas, o Berg adorava brincar mordendo. Era sua forma de se comunicar, de alegremente chamar para a brincadeira. Porém, estava aí o pomo da discórdia.

Ninguém avisou ao jovem Berg de que os humanos não brincam mordendo. Os filhotes humanos não brincam de morder? Argumentação fraca, pensa.

Para André isso pouco importava. Dizia que o Chow-chow tinha dentes de piranha na boca de um cachorro. De tão finos e pontiagudos que eram. O animal crescendo, uma coisa foi ficando muito evidente. Algo para os dias vindouros.

O tempo passou e a pandemia, ao menos em seus efeitos mais nocivos, se foi. Ficou o Berg, com quase dois anos. A família, já fora do isolamento, teve que retomar o dia a dia de trabalho, escola, eventuais passeios e um desejo enorme de se viver livre mais uma vez. Foi quando tudo começou.

O filhotão, festejado, mimado e todo lambido, logo entendeu tudo. Seria relevado ao ostracismo, ao esquecimento. De algumas horas, é verdade. Contudo, como explicar para um cão o que é uma hora? Que o turno escolar tem umas quatro horas?

Aquilo tornou-se um castigo para humanos, caninos e vizinhos. Os vizinhos, aquele tipo de humano que resolveu morar bem ao lado. Aquelas pessoas que se incomodam com aquilo que os outros fazem. Separados por muros que não detêm barulho.

Principalmente quando deixam preso um Chow-chow triste, confuso e deprimido, urrando, gritando. Já nem latia mais. Nunca tinha vivido nada daquilo. Por que as pessoas iam embora? Parecia um cão sendo esfolado em um restaurante chinês. Pobres vizinhos, pobres humanos, pobre Berg.

Começaram a se manifestar. Ligavam para o André, a última pessoa interessada no Berg. Deixavam bilhetes no portão. Chamavam para conversar. Tudo muito civilizado, claro.

André reuniu Paloma, Júlio, Leonel e Paulinha. Precisavam achar uma solução. Explicou e esclareceu tudo demoradamente. Estavam encurralados e precisavam saber o que fazer. Assim, comunicou que seriam obrigados a se desfazer do cachorro.

Quatro pares de olhos arregalados.

Paulinha, do alto de seus dez anos, foi a primeira a falar.

— Não pode, não pode, é injusto! Foi você que recebeu ele aqui, papai. Ele é inocente, ele não sabe nada de Covid. E quem sabe? Na televisão as pessoas ficavam brigando! Ele não tem culpa! — Dito isto, Paulinha se retirou chorando e foi para o quarto.

Jovem demais para compreender os cinismos do mundo adulto. Honesta demais por sustentar a verdade. Mas, não resolvia. Continuavam encurralados do mesmo jeito.

Só havia silêncio. Naquela noite foram todos dormir sem uma resposta. Berg, debaixo da cama da Paulinha como de costume. Não fazia a menor ideia do que se passava ou do que André tinha em mente fazer, pela manhã, bem cedo.

André se pôs de pé, tão longo o dia clareou. Enquanto as crianças dormiam, em silêncio, chamou o Chow-chow com um gesto, sendo logo atendido. Bastou lhe colocar a coleira, que ele aceitou de imediato. Vão sair para passear. Pelo menos para o Berg

Colocou o animal dentro do carro, abriu o portão e pôs o carro para fora, sem ligar o motor. Já do lado de fora, acionou o veículo, fez curva à direita e se pôs em marcha. Berg seria mais um cão abandonado. A perambular, perdido pelas ruas da cidade.

Com ou sem Pandemia, com ou sem verdade. Já não importava mais. André entendia que estava na hora de se fazer o que já deveria ter sido feito desde o fim do Fique em casa.

A ideia era procurar um local ermo e lá, deixar o Berg. Agora o intruso, o indesejável. Tornou-se o ex-alegria, ex-bolinha de pelos, o ex-brincalhão. A vida mudou, nem pandemia tinha mais.

Às vezes, ocorrem coisas quando menos se espera. Uma espécie de alento. Coincidência, diriam outros. Intervenção, de uma gentil e amorosa mão invisível, sustentariam mais alguns.

Em um fusca azul-claro, meio desbotado, que vinha no sentido contrário, alguém deu dois toques naquela buzina bibi. Acenava com a mão esquerda, pedindo a André que parasse seu carro. André emparelhou com o fusca e pode ver quem era.

Era Mascarenhas, o avô postiço das crianças. Aquele tipo de pessoa que viu o pai delas crescer. Que viu Paloma na bicicleta com rodinhas. Com a pandemia e o Fique em casa, havia tomado um chá de sumiço, tão extenso quanto a idade do Berg. Como costumava aparecer muito pouco, perderam contato. Tanto idoso naquele tempo morreu e só depois se descobriu.

Sua proposta era muito simples.

— André, me contaram da confusão por conta de um cachorro, um Chow-chow, lá da sua casa. Aquele que está tirando o sossego de tudo mundo. Eu fui para uma chácara. Vou ficar morando lá. Não é longe daqui. Você se importa de me mostrar o cachorro? Sabia que eles são ótimos vigilantes?

André baixou a cabeça e começou a rir sozinho.

— Pode sim, seu Mascarenhas. Ele está aqui, pode sim.

 

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