Por: Antonio da Mata.
As coisas de todos os dias, ao longo da vida. Uma sequência de pequenas ações nas quais muito pouco se pensa ou valoriza. Como sempre esteve presente, apenas se utiliza daquilo que é corriqueiro. Até que o corpo, cansado daquele ostracismo onde precisou viver, decide reclamar e trazer a conta. Aí surpreende e assusta.
Segurar aquela caneta de plástico, que não era uma pena, mas era leve até demais, nunca se tornara tão difícil. Firmar a mão e escrever algumas linhas tornou-se um desafio, nem sempre vencido. Descobrira, assustada e surpreendida que as articulações dos dedos podiam se desgastar pelo próprio uso. Castigo, imposição descabida, destruidora e cruel. Deus a esqueceu e de sua arte também.
Não era necessidade financeira, nem via propriamente como um emprego. Nem se interessava em vender. Começou com as amigas insistindo em encomendar uns dois ou três.
Aí vieram atrás, para aniversários, casamentos, batizados, chá de panela, de bebê, dia das mães, dos namorados, da mulher, formatura, Natal, Ano Novo e o que mais viesse. De duas a três centenas ao mês, tornou-se algo normal. Até por conta das limitações naturais.
Principalmente depois que se aposentou, ajudou a manter a mente ocupada e ágil. Seus cartões criativos, cheios de imaginação, escritos e decorados à mão podiam ser singelos, mas também elegantes. Afinal, eram feitos um a um. Tornaram-se disputados com os pedidos sendo feitos antecipadamente.
Vânia Meireles tornou-se marca sem o saber, sem pensar, sem desejar. Vânia Meireles, lembrança e arte. Mais que clientes, surgiu da simpatia de muita gente.
Não encheria os bolsos fazendo cartões, mas era feliz assim. Desde o falecimento de Nuno que o movimento na casa passou a ser por conta dos cartões. Um mostruário com referências de modelos de sucesso, ajudava os interessados a decidirem o que de fato desejavam. Só os recebia pela manhã, já que a tarde e início da noite reservava para a confecção. Tornou-se hábil, conciliando a quantidade possível com a qualidade necessária.
Mas, o tempo sempre passa. Leva algumas coisas e traz suas mudanças. Trouxe até Vânia o anjo cinzento, aquele que costuma vir no ocaso. Aquele que tem seu lado sinistro, seu lado secreto e silencioso. Caridoso ao seu modo, deixa marcas, registros, avisos. Primeiramente sutis, leves e suaves. Mal desperta a atenção. Depois inicia o endurecimento. A perda, a dor, as limitações. Tudo sem alarde, sem escândalo. Apenas vem e se apresenta. Quando se vê, ele já chegou.
Com dores nas mãos, procurou um médico e com ele veio um diagnóstico pouco compreendido, mas não por muito tempo. A artrose deformante se estabelece aos poucos, sem pressa. Porém fazendo jus à sua classificação: doença degenerativa.
Lentamente foi abandonando suas habilidades no desenho, na escrita, na combinação de cores, técnicas e papéis. Ofereceu a lembrança e a arte por 44 anos, quando as mãos já não podiam mais. Sem computador, sem máquinas, sem IA. Seu talento cessou, como o fogo de uma vela que aos poucos se apaga.
A idade trouxe outro fantasma silencioso que também não gosta de alarde. Chamavam de sarcopenia, em um tempo em que a academia e exercícios físicos era coisa para os mais jovens. As indicações comuns estavam com os medicamentos e fisioterapia. Fazia-se uma sequência de seções e depois parava.
As mãos já prejudicadas e depois foi a vez das pernas. A seguir a frustração por se sentir um estorvo. A internação em uma clínica definia um dos cenários mais difíceis para os idosos. A distância e o abandono dos filhos completariam o cenário.
Estaria delirando, não dizendo com coisa. As crises de choro, os gritos as sucessivas doses de medicamentos para se acalmar. Já não ficava mais de pé, nem se levantava sozinha. Um corpo totalmente dependente da presença de terceiros.
— Nuno, vem aqui, eu tô aqui, foi todo mundo embora. Vem aqui, eu sempre te amei, vem me buscar! — A súplica se estenderia por dias e dias, sem conta. O senso de realidade se foi. Já não sabia mais o que estava acontecendo ou onde estaria acontecendo o quê.
Achou-se atrevida insistindo em seguir por aquele lugar tão desconhecido e assustada coma ideia de tropeçar e cair, sem força nas mãos para se apoiar. Preferiu avançar lentamente. Também temia que alguém, algum atendente, viesse de repente só para levá-la de volta para a cama. A mesma que ela não queria mais nem ver. Ficou estupefata quando olhou para baixo, para os próprios pés, e se deu conta de que estava caminhando.
Notou que as mãos já não doíam tanto e sentia poder pressioná-las. Surpresa e contentamento se misturaram. Em questão de minutos, alguém a segurou pelo braço. O susto, o medo, a clínica, a cama, a vida de vegetal moribundo. Tudo voltou em sua mente. Teve vontade de fugir, de desaparecer.
— Não se assuste, está tudo bem, apenas caminhe e aprecie a paisagem. Procure se acalmar, logo estaremos em casa.
Aquela voz lhe era tão antiga e comum, mas tão presente agora.
— Nuno, é você...