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terra de espíritos

histórias, crônicas e contos

Foi só uma confusão

Por: Antonio Mata

Aquele som, um piado, lembraria mais um pássaro. Vagando pelas matas durante o dia, comendo insetos, lagartixas e pequenos roedores. Muito ágil, também subia nas árvores para catar frutas e na busca de sua iguaria fina: os favos de mel.

Foi quando a irara virou papa-mel. Pelo zumbido das abelhas, deu-se conta de que a iguaria estava por perto. Encontrou a árvore, que escalou com grande destreza. Indiferente à reação das abelhas, tratou de invadir a colmeia arrancando grandes pedaços. De barriga cheia de tanto mel, sobreveio uma sede enorme.

Atenta aos sons e movimentos, lentamente aproximou-se do igarapé para matar a sede. Porém, na selva é assim: um sacia a fome do outro. Não houve atenção e agilidade suficientes que pudessem salvá-la. Força e velocidade são determinantes na selva.

Um corpo musculoso enlaçou o animal com enorme velocidade, o arrastando para o fundo, de modo extremamente rápido. A sucuri, silenciosamente, também percebe e observa tudo. O lugar frequentado pelas solitárias iraras tornou-se um ótimo ponto de emboscada. Uma tocaia silenciosa e mortal. Até a hábil caçadora fazer confusão e habilitar o dia da caça.

Olho grande é um problema.

Os dias passaram, quando a fome chegou mais uma vez. A discreta e silenciosa sucuri retornou ao seu recanto de tocaia. Enrolou a cauda em um tronco no fundo do igarapé e tratou de permanecer imóvel por debaixo da folhagem que flutuava na extremidade do canal. Ponto habitual onde os mamíferos apareciam para beber água.

Não demorou, ouviu passos na beira do riacho. Imóvel, mas com olhos bem abertos próximos à superfície, ia começar a espreita. Viu com clareza o animal abaixar-se para tomar água. Admirou-se e festejou a chegada de enorme irara. Teria pelo menos o dobro do tamanho. Muita carne em um bote só. O mesmo que pegar duas de uma só vez. Isso era motivo de júbilo.

Confiante na sua força e astúcia, não se importou pelo fato de notar as vibrações de mais passos. Saltou com velocidade eletrizante, se enroscando no bicho que nada mais pôde fazer. Golpe certo, morte certa, por afogamento, quebra dos ossos ou os dois.

Um regougar estridente e barulhento se fez ouvir.

— Grrr, grrr... Que foi isso, que foi isso? Cadê o Manuel?

— Manuel foi pro céu! — Anastácio, o engraçadinho.

— Cala essa boca, sua anta! Cadê o meu primo? — Jimal, o chefe do bando, não gostou.

— Eu vi, eu vi! Foi a sucuri caboca, coisa ruim na emboscada de bicho que para e vai beber água! É, eu vi! Pegou o Manuel na covardia.

— Vai largar agora! E se fez pedaço do meu primo, vai virar picadinho também! Pega a bicha, cambada! Pega a bicha!

Correção: emboscada não é covardia, faz parte da vida na selva. Tanto quanto capturar uma ariranha pensando ser uma irara gigante é um grande e perigoso erro.

Em instantes, 48 garras e 12 bocas cheias de dentes afiados e pontiagudos estavam no encalço da sucuri. Agarraram a bicha pela cauda e desenrolaram, forçando a sucuri a desfazer a laçada mortal. Em seguida, arrastaram o animal para a parte mais funda do canal e a esticaram. Manuel não foi pro céu por um fio.

— Peraí, peraí, isso foi um acidente! Eu não vi que estava acompanhado! Foi uma confusão, um acidente! — A ex-rainha das matas tentava se explicar, mas já era tarde, muito tarde. É a lei da selva.

— Peraí nada, fica quieta que agora é hora do almoço!

Foi assim que a sucuri acabou devorada.

Afinal, vamos aos fatos: na selva, todo cuidado é pouco. É preciso prestar atenção nos detalhes. Não se ouviu o piado tão característico das iraras e sim o regougar das ariranhas. O olho grande acabou fazendo a sucuri descobrir, e do modo mais difícil, que não se tratava de uma irara tão grande e sim de uma ariranha. Além do que, ariranhas são ferozes e vivem em grupos. Já as iraras são solitárias.

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