Por: Antonio Mata.
As águas gélidas permitiam caminhos, passagens congeladas, até chegar em vastas planície tomada de gelo. Caçava focas, sempre atento aos ursos brancos, que não se escondiam. Não eram animais de tocaia, mas era preciso avistá-los logo, à distância, só por segurança. Já que em meio a planície gelada, haveria muito pouco a se fazer diante de um ataque.
Katjuk (a flecha) crescera sobre aquelas terras congeladas, onde a busca por alimentos, principalmente a carne, foi em boa parte substituída pelo apoio governamental. Ficou como prática cultural. Um legado de seus ancestrais inuit.
Contudo, Katjuk, experiente caçador, vinha observando certas mudanças na paisagem branca, onde os óculos feitos de osso foram substituídos por óculos escuros modernos. Notou que Nanuk, o Deus dos ursos, não estava mais orientando seus grandes filhos na busca por focas. Não com a mesma frequência com que fazia antes. Porém, pôde perceber que os ursos não emagreciam. Ficou intrigado. Mas de início, achou melhor guardar só para si.
De volta ao pequeno povoado, agora muito dependente dos recursos trazidos ao local, como querosene, gasolina e óleo diesel, além de carne e frutos congelados. Pôde então, conversar com Pukak, sua mulher, sobre as observações que vinha fazendo.
— Não entendo isso. Onde será que Nanuk está oferecendo comida a seus ursos? Não estão caçando focas.
— Talvez tenha ensinado os ursos a caçarem outros animais, ou mesmo peixes. Aqui existem muitos peixes.
— Pesado e lento como ele é? Antes que possam alcançar os peixes, eles já fugiram.
— O que acha que pode ser?
— Eu não sei, mas terei que descobrir. Vou acompanhar os filhos de Nanuk por alguns dias. Talvez descubra alguma coisa.
Pukak preparou para Katjuk um bornal onde colocou uma provisão de carne de baleia, cortadas em tiras finas e deixadas secar ao vento frio e congelante, além de secarem ao sol. Assim desidratavam e permaneciam comestíveis por meses. Katjuk utilizava uma espingarda de dois canos que fora de seu pai e antes dele, de seu avô. Há muito que os inuit já não utilizavam mais o arco e a flecha. Também levava pó de café e biscoitos. Tudo pronto, se despediu de Pukak e partiu.
No Ártico, a fonte principal de nutrientes é a carne, de aves, ursos, focas, baleias e peixes. Mesmo assim, no grande deserto gelado, existem plantas que servem como alimento e sobrevivem submetidas ao frio extremo, como o salgueiro-polar, que não é arvore e não passa dos 5cm. Mas, que em nome da sobrevivência pode servir de alimento em pequena quantidade. Onde suas folhas e brotos são fonte de grande concentração de vitamina C.
O tripe-de-roche (tripa de rocha), é um líquen que aparece grudado nas rochas à época do degelo. Serve como sopa ou geleia. Entretanto, são de pouquíssima disponibilidade, sendo bastante trabalhoso de se encontrar e de pouco rendimento. Uma iguaria de um mundo congelado.
Não demorou e encontrou um dos filhos de Nanuk. Não pretendia matá-lo. Mas precisava acompanhá-lo à distância e estando sempre contra o vento. Se o animal enorme percebesse que estava sendo seguido, logo Katjuk se veria transformado em caça. Escondia-se sob seu casaco branco e nas reentrâncias do terreno coberto de grossa camada de neve.
Por dias seguidos o urso branco seguiu para o sul.
Até que em dado momento, a vegetação rasteira, típica da tundra, começou a surgir. O urso avançou por horas naquela cobertura rala de musgos, liquens e pequenos arbustos que insistem em crescer, a despeito do clima hostil. Até que encontrou pequena concentração de arbustos. Abaixou-se e se pôs a comer como se fosse uma espécie de animal de pasto.
Katjuk via, mas não acreditava. O grande urso estava comendo plantas. Quem mais iria acreditar nele? Ficou admirado e curioso. Aguardou pacientemente que o urso se fartasse e depois ir embora. Quando o urso saiu, foi ver o que ele havia encontrado.
Por uma razão muito simples. Os ursos não estavam perdendo peso e, afinal, se um urso pode comer, um inuit também pode. Isto seria uma grande notícia, desde de que comprovasse que tinha em mãos, realmente, uma descoberta.
Se aproximou daqueles arbustos e pegou algumas folhas de aspecto arredondado. Deu uma boa olhada, cheirou e finalmente provou um pequeno pedaço daquela folha grossa, para resistir ao frio intenso. Depois, mais um pedaço, até que finalmente comeu várias folhas. Entendeu logo o comportamento do urso.
— Tem gosto de carne de baleia! É isso, Nanuk lhe trouxe uma planta com gosto de carne de baleia!
Sem perder mais tempo, juntou um bocado de folhas no seu bornal e tratou de regressar para seu povoado. A surpresa seria grande. As conversas junto ao fogo, empolgantes. Traria os demais para conhecer o local e aprender a identificar a planta. Talvez existissem mais espalhadas por ali.
Ao chegar, mostrou o bornal e contou a descoberta para Pukak. Ao provar a planta rústica com sabor de carne, Pukak aproveitou e fez uma sugestão:
— Vamos chamá-la nuqik-nuna (carne da planta rasteira). Quando apresentou aos demais, todos gostaram e aprovaram o nome. No dia seguinte um grupo de exploradores seguiu para o sul acompanhando Katjuk. Como se imaginava, quanto mais ao sul, mais encontravam faixas de terra cobertas com nuqik-nuna. Porém, outra coisa também chamou a atenção do pequeno grupo de exploradores:
— Agora com esta planta ficou muito fácil encontrar a caça. É só vigiar onde estas plantas crescem e pegaremos muitos. Pois, também vão querer nuqik-nuna.
— Mas, espere, se Nanuk ensinou os ursos a comer plantas com gosto de carne de baleia, por que devemos caçá-los? Não poderíamos apenas colher as plantas?
— Poderíamos sim Katjuk. Se teremos carne, já não mais será preciso matar os filhos de Nanuk.
Foi assim que, por entre a vegetação de tundra, começou a aparecer concentrações de plantas comestíveis com sabor de carne. Como se observaria depois de pesquisas, ricas em proteína e fibras, de alto teor calórico. A disposição de alimento estava mudando para os inuit. Mas, não era só isso. A própria cadeia alimentar estava sofrendo alterações. Seria o fim dos grandes predadores? Ou melhor, não haveria mais a necessidade de predadores? Só o tempo poderá dizer.