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terra de espíritos

histórias, crônicas e contos

Levante os olhos

                                                              

                                                                                                                          Foto: DWilliam por Pixabay

Por: Antonio Mata

Sentia no corpo o tempo morno e bom, das temperaturas mais amenas. A estrada de terra, entre o amarelo e o cinza-claro, estava orlada pela relva.

De um lado, um bosque onde dois ipês floridos se destacavam, cantantes que estavam e tomados de tantos passarinhos, anunciavam das alturas.

Do outro lado, à meia distância, um milharal novo, ainda teria muito o que caminhar para o fruto maduro. Não demorou grande coisa. Logo após uma curva em suave elevação, a vila era visível. As telhas de barro em estilo colonial. Que nos fragmentos de memória se diria, feitas nas coxas, estavam lá no lugar, pouco importando o pensamento que lhe chegou.

As janelas e portas em azul meio-tom, paredes caiadas em branco ou bege, na sucessão de habitações térreas com árvores frondosas próximas oferecendo muita sombra. Jardineiras e bancos plantados ao redor completavam o conjunto.

A capela, igualmente em cores claras, com grande portal também em azul. A pavimentação em pedra e desenho regular. Tudo assumia um aspecto por demais familiar, como quem volta no tempo há muito esquecido. E uma coisa que o intrigava. Não sentia a ideia de algo velho ou ultrapassado.

Na casa mais avarandada, algumas pessoas pareciam aguardar pela chegada, sem pressa. Como se tudo já fosse sabido, e o retornante, este, sim, já de muito conhecido. Aproximou-se e cumprimentou a todos.

Dirigiu-se a pequena fonte, no intuito de molhar o rosto. Ao abaixar-se, com as mãos em concha, deteve-se. Ali, no reflexo da água, estava alguém aos 19 ou 20 anos. Achou graça ao avistar seu rosto, que logo se desfez ao tocar na água.

Tempo em que muita coisa estava apenas começando. Faria e se importaria com muitas bobagens ainda, até saber separar o que de fato importava ao ato de se viver. Se o saldo foi realmente positivo e quanto, não fazia a menor ideia. Estava surpreso com as pequenas coisas. Os bosques, o casario, a fonte, mas não a ponto de estranhar a novidade. Na verdade, sentia-se bem.

Retornou a si, dirigindo-se à moça ao seu lado.

— Pensei que encontraria uma cidade. Aqui parece uma vila de interior. Muito agradável por sinal. É que alguma coisa me diz para prosseguir, mais adiante.

— Sim, na verdade, aqui é uma colônia, uma das menores. Existem várias e se localizam ao redor da cidade.

— A cidade então, ainda fica longe daqui?

— Fica, sim, e fica não. É você quem irá decidir.

Achou graça mais uma vez. Agora pela resposta que lhe era oferecida, onde ainda teria de decidir a distância que deveria percorrer até a cidade. Para um urbanoide de longa data, lógico que desejaria o caminho mais curto.

A simpatia da moça expressava coisas que lhe reportavam a memórias distantes. Coisas esquecidas, ou que se viveu e não se lembrava mais que tivesse vivido.

— Como gostaria de fazer? — Perguntou ela.

Dessa vez entendeu melhor o questionamento.

— Quero chegar aos poucos, poder conhecer e conversar. Gostaria de caminhar, ver ao redor. Depois, me ocorreu poder voltar e conhecer a colônia também.

— Então vamos, a gente te acompanha.

Retomaram a estrada de terra orlada de relva, de cultivos e de bosques, que agora se apresentava com calçamento em granito. Algo igualmente comum. Animais de pasto, todos soltos, não ofereciam maior atenção à passagem do grupo.

Prosseguiram, enquanto sua mente revisitava, antiga composição do cancioneiro popular, da qual vez por outra se fazia lembrar. Quando percebeu, a canção já era compartilhada pelos demais e todos ouviam. Ela estava ali com eles e simplesmente tocava.

— Como pode isso, como conseguem fazê-lo? — Perguntou bastante impressionado e surpreso, com algo que, para os demais soava corriqueiro.

Wanda lhe respondeu sorrindo.

— Isto nasce da união, do somatório de todas as nossas mentes. Aí então a execução se faz por si só. Certamente que todos precisam conhecer a canção. Ela então toca sozinha, basta que todos queiram, aí quem não sabe aproveita e aprende.

Entre a surpresa e a vontade de rir daquele efeito tão singular quanto fantástico, Raul prosseguia. Já entendia que a caminhada rumo à cidade, não seria nada comum nem mesmo corriqueira. A afinidade, a Lei, guiava as conversas, as mentes e os sentimentos.

— Então, é assim que os espíritos vivem?

— Sim e não. É tudo uma questão de merecimento. Digamos que você mereceu estar aqui.

Sentia-se um tolo, com vontade de rir à toa. Deteve-se e achou por bem orar um pouco, silenciosamente.

— Você está começando a entender. Dizia Wanda.

Tudo era belo e bem-vindo, que não cansa nem fere. O sol era suave, o ar era suave. Tudo convidava à vida e meditação. Meditava-se de olhos abertos, simplesmente contemplando a estrada e o seu entorno de cores muito vivas.

A paisagem por vez, parecia mudar a uma velocidade superior à passada dos viajantes. Pareciam andar bem mais do que de fato, teriam realmente caminhado.

Parou de objetar sobre as coisas e simplesmente se deixou conduzir pelo grupo, pelas impressões e sentimentos ao redor. O simples caminhar já valia o momento. Prosseguiu satisfeito.

Tudo tão simples, mas foi uma recepção e tanto.

Levante os olhos

Olhe de frente pra ela

Olhe bem dentro dos olhos

E veja tudo o que dizem.

...

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