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terra de espíritos

histórias, crônicas e contos

Nuvens sobre a terra

Por: Antonio Mata.

Enorme, seca e invisível mancha circulava e ainda circula. Sofre diluição, um espalhamento tão invisível quanto atuante. Os segredos e as singularidades do céu, assim mantidos, fora das vistas dos homens por muito tempo. 

Certo punhado de poeira e areia agitavam-se no deserto, saltando de montículo em montículo, de duna em duna. Subiam empurrados pelo vento, até descerem do outro lado. Em dado momento, submetidos que foram a um vento mais forte, ganharam rapidamente os céus.

A poeira, de peso ínfimo, se perdeu no firmamento dispensando-se nas vastidões azuladas do céu. Ao longe, quando da separação, olhou para trás e viu os grãos de areia se aglutinando a gotículas brilhantes, formando enormes tapetes, nas alturas sobre as terras e os mares.

"Quando poderei fazer isso também? Quando e como reunir tantas gotículas e estando tão afastados uns dos outros e tão alto? Não há nada aqui. Só o vento que sopra incessantemente e que só aumenta o frio intenso e congelante. Acima só o negrume para contrastar com as estrelas. Pensei que voando estaria livre, mas estou preso aqui sem poder descer. Mal posso ver o que se passa lá embaixo".

Absorto em seus próprios pensamentos, não se deu conta do que se passava ao seu redor. Acompanhando a velocidade do vento, sendo empurrado por ele, incontáveis formações de poeira estavam se fazendo. Isto fez aproximar milhões de gotículas de água que se congelavam instantaneamente. Começaram a desenhar riscos nos céus, ondas, esgarçamentos, formas quase circulares. Alguns chamavam de rabos de galo.

A grande mancha branca em grande velocidade, avançava à frente das demais nuvens. Aqueles núcleos de poeira se fizeram arautos dos céus, anunciando as viradas do tempo, as mudanças no ciclo interminável de resfriamento e aquecimento da Terra.

Os contornos dos litorais, com suas praias e as faixas de espumas provocadas pelas ondas, dos campos tomados de verde ou dos tons castanhos quando estão secos, e montanhas em diversas cores e tonalidades, às vezes alcançando com seus picos as altitudes que lhes cobrem de neve, muitas vezes permanentes. Agora, tudo muito bem visível e delineado. 

Quando se dispersaram mais uma vez, puderam partir e voltaram para níveis mais baixos. Uniram-se a pequeníssimos grãos de areia, provocando a aglutinação de grandes quantidades de gotículas, quando então, puderam se derramar em chuvas intensas, umedecendo os solos e facultando o retorno da vida. Mais uma vez estavam de volta aos grandes cenários, às grandes paisagens da Terra. 

 

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