Por: Antonio Mata
Até nas contradições e nos momentos de conflito, aquilo que parecia ser a lógica do mundo varrido e tão comum traz situações diferentes. Já que vive acontecendo em todo lugar, às vezes abre espaço para o imprevisto, o burlesco e até o engraçado.
No calor de meio-dia. O cruzamento tomado de veículos. Muito barulho com carros avançando no passo das tartarugas. Faziam o asfalto ferver e cintilar mais do que o normal. Quente o ar, o asfalto, os veículos e as cabeças. Está ficando ruim de escapar. Às vezes chega a ser melhor desistir, mas em nome da sanidade.
O sinal vermelho se acende.
Aguardam impacientes só para retornar à procissão. No semáforo, acende-se o sinal verde. A procissão vai recomeçar. Todos querem avançar. Impossível, adiante os carros não se movem. Retomam o som das buzinas.
O veículo de trás buzina sem parar. O veículo da frente, um hatchback prateado. Impossibilitado de se deslocar, dele desce lentamente um homem de cabelos brancos, magro e de óculos. Irritado, se põe de pé, olhando para o motorista do veículo de trás. O esgotamento nervoso, acumulado dia após dia, parece querer fazer a sua parte.
Aquelas câmeras espalhadas pela cidade já estão em operação e prontas para flagrar o próximo duelo urbano, entre afirmativas de que o outro está errado, xingamentos, ameaças e as câmeras esperando as vias de fato, o ápice da doideira coletiva. Permanece de pé e aguarda.
Do outro veículo, um antigo sedã branco, uma porta se abre. Desce em seguida um homem de aspecto forte. Porém, igualmente idoso. Sai do veículo com dificuldade e precisa se apoiar nos dois pés e braços para sair completamente. Em seguida, se abaixa, apanha uma muleta canadense. Daquelas de alumínio com um suporte para o braço. Contudo, segura a muleta como se fosse um taco, um pedaço de pau, e se põe de pé, como quem aguarda o que vai acontecer, mas com aspecto ameaçador.
Pedestres que estavam junto a um ponto de ônibus, igualmente aborrecidos com a paralisação do trânsito, prestam atenção ao que possa suceder naquele confronto de homens no trânsito. Os dois homens se encaram por alguns instantes. O mau humor é evidente. É o primeiro, o motorista do carro prateado, quem rompe o silêncio.
Olhando para o outro homem e a muleta transformada em arma, pergunta:
— Essa muleta aí e você desceu do carro muito devagar. É alguma coisa no joelho, no tornozelo?
— Tenho uma porcaria de artrose nos joelhos. Mas isso não interessa, tenho que buscar meus netos na escola.
O primeiro pensa na resposta e acrescenta.
— Estou aqui de pé, parado. Mas isso é horrível, preciso me sentar. O médico disse que é artrose de quadril. Minha filha me aguarda no hospital. Teve seu primeiro bebê, uma menina.
O motorista do sedã acha graça e abaixa a cabeça. Diz em seguida.
— Eu pensei em te acertar com a muleta. Só que cairia em seguida.
— Não teria como brigar contigo, sem me arrebentar primeiro.
— Estamos ficando velhos e doidos.
— Estamos, sim. Sabe de uma coisa? É melhor parar com isso.
— É sim, é sim. Antes que a gente se machuque. Olha aí, já estão avançando mais um pouco. Não se esqueça da sua filha e da bebê.
— É verdade, teus netos também estão te esperando.
Entraram em seus veículos e as câmeras pouco puderam registrar. A não ser dois velhos marcados pela própria vida em um momento tumultuado. Já que não havia registro de som.